MEIA PORTUGUESA, MEIA CALABRESA


O homenzarrão não falava. Gritava. Vomitava palavras.

O rosto inchado. Vermelho. Puro ódio.

Da boca saíam perdigotos nojentos. Baba venenosa.

- Animal, burro! Disse que ia pagar com cartão! 

- A moça deve ter se enganado. Não me deu a maquininha...

- Ela que se foda. Não vou pagar com dinheiro. Eu disse que era cartão!

- Então eu vou ligar para ela, pra ver o que a gente faz...

- Vai ligar porra nenhuma. Quero a minha pizza já!

Foi nesse momento que o entregador, rapaz esperto, sacou o lance do sujeito. 

E foi mais rápido que o otário.

Subiu na moto, pizza na mão, deu partida e se mandou.

Deu para escutar o que disse antes de sumir na rua:

- Meia portuguesa, meia calabresa, né? Vai ficar na vontade, seu mané.

FIM DE PAPO


- Você está cada vez pior!
E saiu da sala, dona da casa, rainha do lar, batendo a porta, encerrando a discussão.
E ele estava mesmo cada vez pior.
Dor nas costas, dor de cabeça, dor no pescoço, insônia, azia...
E isso agora, essa mania de abrir a boca quando podia muito bem ficar quieto.
Mas o silêncio na casa, passada a tempestade, até que era bom.
Acalmava.
Melhor ir dormir agora que tudo pode piorar.

AMANHÃ É SOMENTE HOJE COM OUTRO NOME


Que amanhã caiam as asas dos passarinhos
e os aviões se espatifem no chão;

que amanhã as sirenes das fábricas gritem uivos
alucinados de medo e terror
e as paredes das fábricas desabem e estilhacem
os tímpanos dos chefes de repartição;

que amanhã os carros engatem marcha-a-ré
e trombem uns nos outros numa infinita balbúrdia
e os sinais de trânsito desafiem a lógica
e deem passagem a todos, mesmo os carroceiros
miseráveis e seus cães sarnentos;

que amanhã o céu se esconda sob a mais negra
nuvem de fuligem, poeira e vergonha
e o sol desapareça de vez e vá iluminar outros planetas;
que amanhã o almoço seja parco e pobre como
o mais miserável grão infecundo que a terra 
nos proporciona - a nós, os miseráveis! -;

que amanhã seja um dia como todos os dias que
se sucedem neste país sem esperança e riso,
sem outros dias a embalar os sonhos 
e sem despertar as ilusões e ver triunfar os gênios;
porque amanhã não existe,
amanhã é uma quimera,
amanhã é somente hoje com outro nome.

ODE À DESESPERANÇA


Onde era para haver silêncio
há um estouro do escapamento 
de uma moto desvairada
e onde era para haver ninguém
há um casal de braços dados
amorosamente ligados 
no seu amor à morte.

O nosso tempo não admite 
senão isso senão essa
intransigência à plenitude
essa implicância à satisfação 
esse gemido de dor.

Onde era para haver vida
há somente a vaga esperança
de que dias melhores virão.

HOMENS PEQUENOS


1
Homens pequenos ignoram
as lágrimas e os risos 
as cores e a beleza que há 
no choro de quem mal nasceu
ou no silêncio de quem se vai
(eles são incapazes de amar)

2
Homens pequenos não sofrem
nem se perdem em sonhos de glória
nem nas utopias de vastas vitórias 
contra improváveis moinhos de vento

3
Homens pequenos são assim 
porque assim não têm compromissos
não assumem responsabilidades
não se destacam na multidão
e seguem na vida tranquilos e confortáveis
em sua minúscula existência

4
Homens pequenos passam pela vida
ignorados por ela e são louvados 
por outros homens sem talentos 
sem nada a dar sem nada a dizer 
sem marca nenhuma que não a pequenez

5
Homens pequenos 
são fantasmas mortos vivos
que gastam as horas do dia
a fazer coisas pequenas 
tarefas inúteis missões fracassadas
frustradas tentativas
de um mísero sucesso

6
Homens pequenos têm medo
do escuro
da luz
da lua 
do sol
do cheiro de suor do trabalhador braçal
da testa franzida do homem de negócios
dos falsos sermões do pastor da esquina
da suja mão estendida do indigente 

7
Homens pequenos só obedecem
os interesses dos outros homens
não perturbam o sono dos poderosos
mas falam alto com os pobres de espírito

8
Homens pequenos se passam por homens mas são apenas pequenos

A LUZ NO FIM DO TÚNEL


Era para ser o dia depois da noite
mas acabou sendo que a noite 
não se deu por vencida e encheu
de escuridão o que era  o dia

Houve gemidos houve gritos
mas nenhum foi mais forte 
que a risada histérica 
a gargalhada estrondosa 
que ninguém entre os vivos
teve a coragem de ouvir

Era para ser uma madrugada
silenciosa e cheia de vazios
que se acabava com o galo cantando
e a estridência das ruas coloridas

Mas o que veio depois foi 
o indisfarçável cheiro da carniça 
o indescritível medo da morte
o inútil pedido de socorro

O sol não passa de uma promessa
sem caráter 
sem sentido 
sem vergonha
sem luz

OS MORTOS E OS VIVOS


Os mortos se escondem soterrados 
em sua vergonha e apodrecem calmamente
sem que nenhum ruído os importune.

Aos vivos cabe apenas a vergonha
e se dela escapam não lhes resta mais nada
a não ser esperar a morte.

Os mortos não podem voar, nem respirar,
nem ao menos bocejar de tédio;
os vivos se recusam a voar, respiram por 
aparelhos e adormecem com pílulas.

Os mortos vivem na lembrança,
os vivos morrem sem esperança.

OS DEUSES DE SANGUE E PUS


Dentes brancos, tratados, perfeitos;
rosto de pele brilhante, cremosa;
fala erudita de total sapiência;
palavras medidas, gestos precisos -
nossos heróis têm a imagem de deuses.

E assim agem como se fossem,
ao vivo, em cores, no espoucar dos flashes,
à luz cegante que tornam as câmeras
irresistíveis portos seguros
das verdades incontáveis
e das convicções irrefutáveis.

E assim ninguém há de dizer que são apenas homens,
e menos ainda, que têm os vícios dos homens,
e menos ainda, que por serem de carne e osso,
de sangue e pus, de merda e vômito,
nunca serão deuses, nunca serão ao menos 
homens de verdade, porque a esses 
não importa a glória pérfida dos hipócritas, 
mas sim o orgulho de ter vivido em paz
consigo mesmo e com os outros homens.

O FOGO QUE NOS PURIFICA


Deixem a floresta queimar o fogo mais rubro,
o fogo mais alto e o fogo mais estrondoso;
que as chamas espalhem o terror por todas 
as criaturas rastejantes, os pequenos seres alados,
os ínfimos e invisíveis operários do solo;
que a fumaça asfixie e afogue pulmões 
e o calor seja tal que a pele se desprenda 
e todo tecido vivo enegreça, carbonize
e vire pó - porque ao pó retornaremos.

Que importa que o ar fique irrespirável,
que o sol desapareça ao meio-dia,
ou que os hospitais se entupam de 
cadáveres ambulantes, zumbis de casacas,
damas da sociedade com roupas de grife?

Há remédios de sobra para todos eles.
Por isso deixem a floresta arder até a última agonia,
porque os tamanduás embandeirados,
os macacos saltitantes, as araras coloridas,
os jacarés preguiçosos e os lagartos sonolentos
não são como a gente, não sabem explicar 
as razões de terem nascido sem voz, 
sem que possam ao menos pedir socorro,
e não entendam que o fogo purifica,
redime os pecados e eleva a alma aos céus.

O último desses seres sem importância
será o nosso legado, o nosso orgulho e a nossa vergonha.

EU VI O LOUCO E O LADRÃO


Lá na esquina vi o louco que proclama o fim do mundo.
Estava vestido como um marechal emplumado
e carregava um revólver de brinquedo, um apito de lata
e um urinol cheio de páginas de um resto de Bíblia.

Vi também naquele espaço onde se cruzam incertezas
perenes, sonâmbulos desatinados e pobres de espírito
alguém gritar "pega ladrão", "chamem a polícia" 
e outras tolices ultrapassadas por estes tempos de ódio.

Vi mesmo o ladrão correr no sentido contrário ao vento
e ir de encontro à fatalidade dos trombadinhas minúsculos,
larápios mequetrefes e reles punguistas:
o esboroar-se à vista da autoridade de uniforme cáqui e 
quepe solene tal qual a ponta de uma vara justiceira.

Vi o ladrão se curvar sob o peso de pancadas e gritos 
e o louco implorar perdão pelos pecados de todos.
Não vi mais porque no bar da esquina a TV nos
mandava calar a boca e obedecer a ordem do dia.

Era de tarde, estava frio, carros passavam indiferentes
a qualquer desvio de sua rota de volta ao covil.

HOMENS E BEBÊS


Fingia que não se importava com os xingamentos, os terríveis palavrões, as ameaças de todo tipo, e até mesmo as fracas agressões que recebia do frágil corpo daquele homem, o seu paciente, sua fonte de renda exclusiva depois que foi demitida da Casas Bahia.

Havia investido uma boa parte do que recebera pela dispensa num curso de cuidadora de idosos. 

Achava que levava jeito para a coisa, gostava de crianças e velhinhos, sentia orgulho em dizer que esteve presente, dia e noite, no último ano de vida de seu pai.

Mas nunca esperara ter de cuidar de alguém como aquele homem, alma ruim.

Era só ajudá-lo a se levantar da cama, ou da poltrona, ou dar comida a ele, ou despi-lo para tomar banho, ou, enfim, fazer qualquer coisa que uma cuidadora tem de fazer com seu paciente, que ele se transformava, virava um demônio.

- Filha da puta! Vai embora, você é horrível!

Era uma agonia.

E não adiantava reclamar com a filha daquele homem:

- Não ligue, ele não fala por mal, isso é da doença.

Quando chegava em casa, chorava de nervosa.

Até que um dia percebeu que se continuasse com aquele homem iria ficar doente - nem dormia direito mais.

Pediu a conta.

E resolveu tentar um novo ofício: foi ser babá.

- As crianças choram, mas não dizem palavrão. De resto, aprendi a fazer quase tudo que um bebê precisa: dou comida, banho, troco a fralda... - explicou para a vizinha, sua boa amiga.

Foi, enfim, feliz.

O ÚLTIMO TORCEDOR


A bandeira era um farrapo só.
Como seu time.
O pior entre os piores.
Um saco de pancadas.
De vexame em vexame, de goleada em goleada, sobraram sete jogadores, três torcedores, e um cachorro magro e feio que abanava o rabo quando o juiz apitava falta, pênalti, escanteio, tiro de meta, gooool.
Nem técnico havia.
As camisas do uniforme estavam cheias de buracos, a cor indefinida entre um pálido amarelo e um branco acizentado.
Ninguém tinha chuteira.
Quando o jogo começava a derrota surgia inexorável e imensa em todos os cantos, em todos os rostos, em todos os lances grotescos daquele time despedaçado.
Os três torcedores viraram dois - Altamiro desesperou-se e mudou de bairro para ficar longe da humilhação -; Bento trocou a paixão do futebol pelo corpo da mulata Joana.
Sobrou ele, o obstinado, o último torcedor.
- Homem que é homem não muda de time - dizia a quem estranhava sua obsessão pela derrota.
Mas o tempo passou depressa, o campo esburacado onde tanta raiva e vergonha foram plantadas virou um condomínio de luxo, cinco altas torres de prédios indiferentes aos dribles e fintas que incontáveis craques anônimos deram às vicissitudes da vida.
O time se foi, cada um por si, cada qual para o lado que achou melhor.
E ele, o abnegado, se sentiu traído, se sentiu roubado.
- Meu time me abandonou, mas eu nunca vou abandonar meu time - falava em voz alta, a mesma voz com que xingava o juiz, os bandeirinhas, o goleiro do adversário, para quem quisesse ouvir.

A LEI DO SILÊNCIO


Morava no décimo andar, ou seja, o último.
Reclamava de todo e qualquer barulho: cachorro latindo, gato miando, criança chorando, televisão alta, pássaros cantando, caminhão de gás...
O zelador não aguentava mais.
O síndico, então...
Os vizinhos de seu andar já nem o cumprimentavam.
O de baixo, numa reunião do condomínio, quase quebrou uma cadeira em sua cabeça.
Seu mau humor durou anos.
Sua intolerância tornou-o famoso na rua.
A molecada fugia quando ele chegava com seu Gol prateado.
Os porteiros do prédio nem ousavam olhar para ele quando ele saía ou entrava.
E a vida seguiu assim por vários anos, até que um dia...
Foi bem naquela hora em que o pessoal ia trabalhar, de manhã bem cedo. 
Mais de dez pessoas foram testemunhas de sua derrocada, ali no pátio, ao lado do parquinho com seus brinquedos desgastados.
Ele até que tentou se safar, mas não deu, pois além de gritar e botar o dedo na sua cara, dona Geralda, a patroa do seu Juvenal, o reclamão, ainda lhe deu uma estrondosa bofetada, daquelas que envergonham por toda a vida qualquer machão.
Depois disso, os cachorros latiram à vontade, os gatos miaram como nunca, as crianças choraram até arrebentar os pulmões, o som da televisão virou uma algaravia infernal, os pássaros soltaram a voz e o caminhão de gás soou sua musiquinha até os alto-falantes estourarem.
E o seu Juvenal ficou mudinho.

CHOCOLATE DOCE DEMAIS


Quando pisou na bola pela primeira vez, mandou à patroa rosas vermelhas. Foi perdoado, mas teve de prometer andar na linha.
Na segunda vez, escolheu um arranjo de gérberas
Custou uma nota, porém valeu a pena: o caso ficou por isso mesmo, nem promessa fez.
Na terceira, juntou um cartão com versos mancos às anêmolas que comprou para o amor de sua vida. 
Escorreram lágrimas daquele rosto ingênuo.
Houve uma vez mais, apenas uma.
Achou que se livrava fácil com um buquezinho de pobres margaridas.
Acabou tendo de se consolar do adeus inesperado mastigando os chocolates doces demais que havia guardado para tal eventualidade.

PAPO DE ELEVADOR


Não contei ainda, mas o prédio que leva o nome de Condomínio Feliz Cidade já é entrado nos anos. Desconfio que passou dos 30. Aqui, as coisas funcionam mais ou menos, são temperamentais, às vezes empacam e não querem sair do lugar.
Como os elevadores.
Ontem foi a vez do social quebrar. 
Comigo dentro. Por sorte, não estava sozinho. Minha companheira de viagem era a filha da dona Lúcia, do 53, a Izildinha, que tem, calculo, 15 anos.
Nos 20 minutos que ficamos juntos enquanto o Zé não veio nos resgatar, pude conhecer um pouco dela.
Conversamos - algo raro entre os moradores deste prédio - e, por incrível que pareça, vi que a Izildinha não é uma adolescente comum - como a minha filha, por exemplo.
Conheci uma pessoa preocupada com a família, com o futuro do país - e com a sua própria vida.
Só não entendi quando ela me disse que gostava de morar aqui e que lamentava o estado de conservação do condomínio. 

Sempre pensei que os jovens sonhassem em ir embora de suas casas o mais cedo possível.
Antes de nos despedimos, a Izildinha me falou que iria escrever "poucas e boas" no livro de sugestões que fica mofando na portaria.
Queria ter a coragem da Izildinha. 
Mas infelizmente não sou jovem como ela. 
O tempo nos dá sabedoria e nos tira a coragem.
(Capítulo 6 da mininovela "Condomínio Feliz Cidade")

A PAZ DE ESPÍRITO


O pequeno telefone celular tocou.
Não uma, mas duas, três vezes.
Aquele som estridente da campainha que ele não soube escolher.
Depois parou.
Foi só então que tomou coragem para ver o número.
Um número desconhecido.
Quem seria?
Quem teria sido tão insistente para ligar três vezes em seguida?
Procurou esquecer o assunto.
Mas não pôde, porque o telefone gritou novamente por ele.
Alto.
Forte.
Até se calar.
O coração disparado, a mão tremendo, a boca seca, os sinais do pânico.
O silêncio.
O pequeno telefone jogado na mesa, um objeto como qualquer outro, porém capaz de provocar o terror, minúsculo demônio.
Não pensou.
Agiu por instinto, como as bestas.
E só depois de ouvir aquele inconfundível CRAC que fez o monstro ao se despedaçar sob os seus pesados e duros sapatos é que pôde reencontrar a paz de espírito intensamente almejada desde sempre.
Desde que havia comprado, em seis suaves prestações, aquele aparelhinho que lhe prometia o paraíso. 

ERA UMA VEZ UM GOL PRATA


E não é que o Zé, o porteiro ranzinza que ficou meu amigo depois que, por pura sorte, arranjei, entre aspas, um emprego para a sua filha na firma onde trabalho, já retribuiu o favor?
Ele me deu uma dica importante:
- Seu Carlos, tem um pessoal estranho rondando o quarteirão nesses dias. É bom o senhor tomar cuidado: seu carro não é novo, mas não é bom dar bobeira.
O carro a que ele gentilmente se referiu é um Uno 97 já bem rodado, que deixo na rua para poder alugar a garagem e garantir um dinheirinho extra para a feira. Não tenho seguro porque, além de caro, sempre achei que ladrão nenhum iria se entusiasmar pela minha condução - automóvel, definitivamente, aquilo não é.
Mas fiquei atento à dica do Zé. Comprei uma supertrava - a propaganda jura que com ela ninguém pode - e bati um papo com o Barbosa, o porteiro que atravessa a madrugada:
- É bom você ficar acordado, telefone na mão, bem esperto.
Minha rua é tranquila, mas nunca se sabe. Ou melhor, o Zé sabia: não é que duas noites depois de seu aviso um alarme disparou, acordou meio mundo e batata! - levaram o Gol prata lindo lindo do filho do seu Antenor do 43.
A polícia passou pelo prédio, não fez absolutamente nada, só assustou a vizinhança.
Hoje em dia esse pessoal que tem dinheiro para pagar seguro dorme sossegado.
Dinheiro é bom, compra segurança, entre outras coisas.
Como tenho só o suficiente para ir levando, me contento com esse Uno 97 que nem ladrão pé de chinelo quer.
Ainda bem, sem ele estaria perdido. Para garantir vou arranjar mais uma trava - e, quem sabe, mandar instalar um desses alarmes estridentes.
E rezar para que ele não toque nunca.
(Capítulo 5 da mininovela "Condomínio Feliz Cidade")



O HOMEM INSIGNIFICANTE


1
Não era baixo nem alto. Nem gordo nem magro. Não ganhava bem nem mal. Classe média, sustentava a família - mulher e filho - morando num apartamento de dois quartos, 55 metros quadrados, num bairro da periferia, comprado com a ajuda do sogro e do dinheiro do FGTS.
Almoçava fora de casa, ia ao trabalho no Palio 99 que levava uma vez por ano ao mecânico - de confiança - perto da padaria. Voltava só depois das 8 horas da noite. Comia alguma coisa que a mulher tinha feito no almoço, via o Jornal Nacional, lia a Folha, que comprava religiosamente na banca perto do emprego.
Dormia um sono agitado, tinha a pressão alta, mas não consultava nenhum médico. Preferia o remédio que o farmacêutico lhe vendia, com a garantia de que era um lançamento, tiro e queda e tal. Consultava a bula e fingia sacar tudo aquilo que as letrinhas prometiam e advertiam.
2
O dia em que voltou para casa com o coração disparado, quase na boca, a adrenalina solta no corpo cansado, começou com nuvens e terminou com chuva.
E foi a chuva a responsável por tudo.
Se o asfalto da rua do posto de gasolina onde, por R$ 60 mensais guardava seu Palio, estivesse seco, talvez,
muito provavelmente,
com certeza absoluta,
aquele Gol verde tivesse parado apenas poucos metros depois de ter as rodas travadas pela ação instintiva do seu motorista que meteu o pé no freio quando o moleque largou a mão gorducha da mãe e correu desembestado sabe-se-lá-para-que-direção apenas que era para onde não deveria ir ou seja:
o meio da rua com o asfalto molhado e escorregadio.
A buzina estridente fez com que virasse a cabeça para a esquerda e fosse atingido de frente por pingos d'água agressivos e gelados. Aí, nesse instante, seu olhar se congelou numa cena de cinema, uma tragédia descolorida pelo anoitecer precoce devido às nuvens opressivas daquele dia úmido.
pensou
não pensou
e se atirou com toda a força que pôde ao encontro daquela figurinha de vermelho e verde e tão viva que se movia como um personagem desarticulado de desenho animado.
3
Ao tocar a campainha do apartamento no sexto andar não esperava que sua mulher fosse se atirar em seus braços e dizer eu te amo como nos filmes.
Nem que seu seu filho viesse lhe contar que era o melhor aluno da escola que custava mais que o salário mínimo por mês e não tolerava mensalidades atrasadas.
Nada disso.
Sabia que naquela noite o sofá desbotado,
as cadeiras meio bambas,
a parede de cor indefinida,
os talheres gastos,
o prato lascado,
a comida insossa,
as notícias velhas da televisão e do jornal
e até mesmo o beijo mecânico de sua mulher murcha e sem graça e a indiferença ingênua de seu filho raquítico e pálido
teriam um gosto único e especial.
Porque naquela noite ele não era o homem insignificante que acostumara toda a sua vida a ser.





DUAS CARAS



Do lado direito era feio, duro e implacável.
Do lado esquerdo contrariava a lógica e se sentia humano.
No primeiro passo esmagava qualquer vida que se pusesse à frente.
No segundo, ultrapassava os limites e chegava a flutuar.
O primeiro gole queimava.
O segundo aplacava o fogo.
No espelho, o que via era só um rosto.
No travesseiro, fechava os olhos e sonhava com anjos.
Era certo de dia
e errado de noite.
Sentia a alegria dos palhaços
e a tristeza dos desenganados.
Passeava por praias, montanhas, estradas sem fim e cidades encantadas.
Trancava-se no sótão escuro habitado por fantasmas ancestrais.
Comia e bebia com prazer.
Maltratava seu corpo com a tortura da sede e da fome.
Corria.
Parava.
Subia.
Descia.
Se fosse preciso calaria as injustiças do mundo com sua voz embargada de emoção e fúria.
Mas nunca faria nada que pusesse em risco sua tranqüila e segura concordância com tudo.
Num certo dia de sol, depois de se mover solto e leve pela praça que separava sua casa da estação do metrô, foi subitamente abordado por dois pivetes que
primeiro deram um murro no seu estômago,
depois chutaram suas costelas quando estava no chão
e, por fim, saíram rindo como se nada tivesse acontecido, levando sua carteira com 150 mangos, cartões de crédito e débito, documentos e outras coisas de menor importância.
Foi aí que quis rir,
mas apenas chorou.



PORRADA


Era ruim de pequeno. 
Botava fogo em gato, cortava rabo de lagartixa, maltratava o irmão menor e chutava a perna da mãe quando ela lhe dava umas palmadas.
Grande, sempre que podia, continuava com as maldades.
Passava com seu carrão por debaixo de um viaduto quando viu dois sujeitos mulambentos deitados debaixo de um cobertor imundo.
Parou o carro, desceu e foi falando:
- Olha aqui, uma nota de cem reais para quem ganhar uma luta entre os dois. É vale-tudo mesmo, quero ver sangue.
Os dois se olharam, se levantaram, foram se chegando meio desconfiados e, quando estavam bem pertos, encheram o playboizinho de porrada.
Ele ficou no chão, sangrando e gemendo.
Perdeu a nota de cem, a carteira com mais 250, todos os documentos e, é claro, o carrão preto quase novo, que só viu arrancar num tranco e sumir na avenida longa e deserta.



TELEFONE SEM FIO


- Você viu? A mulher do patrão entrou na sala dele e saiu de lá na maior pressa...
- ...Saiu de lá chorando à beça...
- ...Parece que o filho deles foi pego fumando um cigarro...
- ...Com maconha no carro...
-...Resolveram tirar um mês de férias...
- ...O garoto vai ficar com uma tia...
- ...Numa casa completamente vazia...
- Tenho tanta pena dessa família!




QUARTETO DE CORDAS


O quarteto sempre havia se dado bem.
Até o dia em que o segundo violino esticou a corda demais - o primeiro violino achou aquilo um insulto.
A viola se incomodou e entrou na discussão: reclamou uma autoridade que foi contestada pelo grave violoncelo.
No meio da sonata o pau quebrou feio.
E não houve Brahms que desse jeito nem Beethoven que consertasse o estrago ou Mozart que restabelecesse a ordem.
A paz chegou apenas quando baixou um Pixinguinha com seu jeito manso de insinuar a melodia e sua maestria em prever o tempo certo para qualquer compasso.
Ou seja, o recital teve um fim imprevisto, mas satisfatório.
E todos voltaram felizes para casa.
Menos o piano, que permaneceu mudo, porque não tinha nada a ver com aquela confusão toda.




GIGANTE

Baixinho, tampinha, nanico, meia dose, chaveirinho, goleiro de pebolim, pintor de rodapé, piloto de autorama, caçador de lagartixa, amostra grátis, salva-vidas de aquário, maquinista de ferrorama .
Ouviu isso a vida inteira. Às vezes ria. Depois chorava de raiva. Mas aguentou calado. Os anos se passaram, subiu na vida. Era pequeno, mas importante. Estudou, deu duro, trabalhou feito um burro (ops, um burrinho), foi duro com os amigos (poucos), fez inimigos (muitos) e hoje sabia que era invejado.
Apesar do metro e meio de altura.
E, mais que invejado, respeitado.
Por isso estava orgulhoso de ter sido convidado para a cerimônia de assinatura do contrato da firma em que trabalhava com aquela multinacional poderosa, distante, fria e exigente. Contrato que tinha redigido, modificado, corrigido, linha por linha, palavra por palavra, vírgula por vírgula. Um triunfo que atingia, naquele momento, seu auge.
- Com a palavra, agora, o dr. Gilmar Pereira, diretor-presidente da Pereira Edificações. Palmas merecidas.
Os fotógrafos e cinegrafistas se atropelaram na busca do melhor ângulo.
- Senhoras e senhores, é com muita satisfação que recebo cada um de vocês nesta humilde casa para anunciar que fechamos o contrato para a construção do maior empreendimento imobiliário de nossa cidade, com nada mais nada menos que a Empire Investments. Todos os detalhes do negócio serão dados posteriormente pelo nosso diretor-financeiro, o dr. José Ribeiro. Quero também, neste momento, agradecer ao nosso diretor-jurídico, o dr. Bráulio Gimenez, que empreendeu uma tarefa hercúlea, à altura de seu enorme, imenso, gigantesco talento...
O que se seguiu depois teve várias versões. Mas ficou mesmo a que saiu no Jornal de Notícias: "A determinada altura do discurso do diretor-presidente da empresa, justamente na parte em que era elogiado pelo seu 'enorme, imenso, gigantesco talento', o diretor-jurídico, dr. Bráulio Gimenez, começou a xingar o seu patrão, entre outros palavrões impublicáveis, com gritos de 'filho da p..., gigante é a mãe', antes de agredí-lo com chutes e socos e ser, finalmente, contido e dominado pelos seguranças."
O estilo pode ser ruim, mas a descrição foi fiel aos fatos.
O jornal fez ainda a ressalva de que o dr. Bráulio Gimenez, justamente devido aos meses de trabalho exaustivo que tivera para concluir o contrato com a Empire Investments, havia sido vítima de um colapso nervoso.
Informou também que ele estava tomando uma medicação muito forte, "capaz de reações imprevistas se adicionada a bebidas alcoólicas", como explicou seu médico particular, o dr. Bento José Dias.
E testemunhas juram que viram o dr. Bráulio Gimenez pedir pelo menos três doses de uísque no coquetel que antecedeu o discurso do patrão.
"E doses duplas, que derrubariam até um homem de tamanho normal", disse um dos convidados ao repórter do Jornal de Notícias.



A FONTE DA JUVENTUDE


Quando notou que os cabelos negros de sua mulher estavam mais bonitos com o tom prateado que haviam adquirido nos últimos anos, tomou a decisão de não procurar mais saber, diariamente, na frente do espelho, com os olhos míopes arregalados, se a barba estava ficando mais branca.
Percebeu que essas mudanças não eram apenas exteriores.
Sentia o coração leve, a alma solta, o espírito em paz.
E, assim, abandonou definitivamente qualquer esperança de se tornar eternamente jovem.




ZÁS-TRÁS



Era pretinho, ficava nos cantos quieto, medroso, à espera da oportunidade, à mercê do desejo, da fome, os olhos brilhando como tições, o nariz caçando odores, a língua uma lixa seca, as garras recolhidas, prontas para virar punhais.
Era pequeno, pretinho, quieto.
Nos cantos, quieto.
Até que um descuidado pardal desceu do galho e foi, inocente, bicar um pedacinho de pão mal varrido perto da porta da cozinha.
Bastou um segundo.
Um zás, um trás, um pulo no pátio inundado de sol.
E foi o bote de uma pantera, negra, imponente, inundada de sol.
Era pretinho, quieto, pequeno.



SEQUESTRO POR TELEFONE


- Alô, é o Celso? Quero falar com o Celso.
-É ele, pode falar.
- O senhor ama a sua filha?
- Não tenho filha.
- Mas o senhor ama a sua filha?
- Já falei que não tenho filha.
- Ah, não? Mas, bem, o senhor ama a sua mulher?
- Claro, estou casado com ela há 20 anos.
- E não tem filha?
- Nem filho. E daí? Afinal, o que o senhor quer?
- É sobre a sua mulher...
- O que tem a minha mulher?
- O senhor ama a sua mulher?
- O senhor já me perguntou isso.
- É que nós estamos com a sua mulher.
- Nós quem?
- Ah, isso eu não posso falar.
- Então vou ter de desligar. Não sei quem é o senhor nem o que quer.
- É sobre a sua mulher...
- Mas que é que tem a minha mulher?
- Nós estamos com ela e se o senhor a ama...
- Mas que raio de história é essa de eu amar a minha mulher?
- Não, veja, se o senhor a ama... É que nós estamos com ela...
- E daí? Ela pode ficar com quem quiser. É minha mulher, mas pouco me importa quem são seus amigos.
- Mas nós não somos amigos dela.
- E não me importa quem são seus inimigos.
- É que estamos com sua mulher e se o senhor a ama e a quiser de volta, vai ter de pagar para nós dez mil reais.
- Pagar para ter a minha mulher de volta? Mas o que é isso?
- O senhor não entendeu? Nós seqüestramos a sua mulher e se o senhor quiser ter ela de volta, vai ter de pagar...
- Dez mil reais? A minha mulher vale dez mil reais? Nem eu valho isso.
- Bom, pode ser menos. Oito mil.
- Nem cinco, nem mil. Para que eu vou querer pagar pela minha mulher? Pago todo dia para ela. Quem é que trabalha aqui nesta casa? É ela? Não senhor, sou eu. Ela só sabe gastar.
- Mas se o senhor ama a sua mulher, vai ter de pagar.
- O senhor respeite a minha mulher. Pagar uma ova. O senhor acha que ela é uma prostituta?
- Não, não disse isso. Só que queremos dez, não, cinco mil reais para soltar a sua mulher, senão...
- O quê? Soltar? Como? Ela está presa? Aprontou alguma? Roubou, matou? Bateu o carro? Estava bêbada?
- Não, não... É que nós a seqüestramos...
- E ela não fez nada? Ficou quieta? Como foi isso? Quero falar com ela agora para resolver esse assunto. Passe já o telefone para ela.
- Mas não é assim que funciona. Não posso deixar o senhor falar com ela. Mas ela está bem.
- Mas é claro que está bem. Não trabalha, gasta o meu dinheiro, vive fofocando com as amigas, não limpa a casa, cozinha com uma má vontade que dá dó e o senhor queria que ela estivesse doente? Que estivesse Cansada? Claro que não. Está é gorda, desmazelada.
- Então, se o senhor quiser que ela volte, vai ter de pagar cinco mil...
- De novo? Como vou ter pagar para ter a minha mulher? Isso é um absurdo! Nem um centavo, nada.
- Mas se o senhor não pagar, nós vamos ter de dar um sumiço nela.
- Como se isso fosse fácil... O senhor diz isso porque não conhece a minha mulher. O senhor não acha que eu já quis sumir com ela umas mil vezes? E sabe o que consegui? Sabe? Ela não larga mais do meu pé, só vive para me encher, faça isso, faça aquilo, não coma isso, não beba aquilo... Um inferno.
- E como nós vamos resolver o assunto?
- Por mim está resolvido. Se o senhor sumir com ela será ótimo para mim que fico livre dela e não gasto mais nada.
- Mas assim nós vamos ficar no prejuízo.
- E eu que estou faz 20 anos no prejuízo? Isso não conta?
- Mas não está certo, não é assim que funciona. O senhor tem de pagar.
- Não pago e além disso mando a conta do que ela gastou este mês com o meu cartão de crédito para o senhor. Qual é o seu endereço, por favor?
- O meu ende... O senhor está louco?
- Faz tempo que estou, casado com essa mulher qualquer um fica louco. O endereço, o CIC e o RG, por favor que eu não quero mais perder meu tempo.
- Não vou dar endereço nem nada. O senhor não sabe que esse negócio de passar números pelo telefone para estranhos é perigoso, que está cheio de malandro e vigarista por aí?
- Se é assim, então vou ter de desligar.
- Tá bom, então até logo.
- Passe bem. E diga para minha mulher vir logo para casa.
- Pode deixar. Será um prazer. Um bom dia para o senhor.

- E para o senhor também.
Fim da ligação.




É CAMPEÃO!

- E goool!!!
Batido o último e definitivo pênalti, Romualdo gritou, pulou, cantou e saiu do estádio com a multidão de torcedores inebriados.
Entrou no carro, engatou a primeira, a segunda, a terceira e quando viu, estava no meio do trânsito buzinando e buzinando ao ritmo do "é campeão!" que ouvia dos alucinados passantes vestindo a camisa branco e preta de seu time, seu amor, sua vida.
Mas a comemoração não podia parar aí. Precisava de mais, muito mais. Quando viu o quarteto de colegas do trabalho sambando na calçada, não teve dúvida, quase os atropelou para depois convidá-los:
- Vamos beber que o Timão merece!
E foram os cinco para o boteco mais perto que encontraram. Nada de cerveja, nem cachaça. Uísque à vontade.
Depois de deixar os quatro no ponto de ônibus, calibrado por cinco doses de Passport, seguiu para casa, ainda buzinando.
Largou o carro na rua mesmo. Pulou a mureta do jardim, abriu a porta sabe-se lá como e se jogou no sofá.
Sentiu um calor repentino correr o corpo inteiro. Levantou e abriu a janela da sala. Respirou o ar frio da madrugada uma, duas, três, várias vezes. A cabeça girava, o estômago começava a embrulhar, mas mesmo assim encheu o pulmão e gritou, com toda a força que tinha:
- Campeão! É campeão!
Ao silêncio que se seguiu, dois cachorros latiram, um gato miou e, antes que fechasse a janela e caísse no carpete sujo da sala, ouviu o vizinho da frente protestar:
- Corintiano filho da puta! Deixa a gente dormir!

DE CARNE E OSSO


Era um mulherão de fechar o comércio.
Longos cabelos morenos, sobrancelhas negras, seios cujas formas voluptuosas a blusa amarelinha deixava adivinhar, calça de jeans apertada, justinha, uma perfeição só.
O caixa do banco estava de olho nela fazia bem uns 15 minutos. 

E contava os segundos para atendê-la.
Finalmente, ela ficou na frente dele, olho no olho, aquela boca carnuda a menos de 30 centímetros da sua boca atônita.
- Pois não - quase gaguejou de tanta emoção, o coração aos pulos, descontrolado.
- O senhor pode depositar esse cheque? Cai na conta hoje? - perguntou, com uma voz de criança, fininha, sem entonação e nenhuma graça.
- Cai, sim - respondeu o caixa, aliviado por ver que a sua deusa era apenas só mais uma mulher.
E antes de chamar o próximo cliente, viu que o relógio da parede marcava 11 e 15 e ele tinha ainda um longo dia pela frente.





SEM PARAR


Furava os semáforos vermelhos igual faca cortando manteiga.
Colava na traseira de quem ia na frente e piscava os faróis até passar.
Pegava a contramão com a inocência das crianças travessas.
Andava na faixa dos ônibus na cidade e nos acostamentos nas estradas.
Não suportava ficar atrás de carro nenhum.
Estacionava nas vagas para idosos no shopping.
Um dia comprou o Sem Parar e no feriado desceu para o litoral.
Excitado, entrou no pedágio a quase 100 por hora.
Quebrou a cancela, quatro dentes e teve escoriações feias no braço direito.
Pior: trocou o capô, o para-brisa e os dois espelhos.
Mais a multa, levou um prejuízo de R$ 5 mil.
E enquanto o sol brilhava na Baixada, ele via na Globo o seu Tricolor perder para o Coringão.
Com dois gols do Ronaldo, o gordo Ronaldo.

PINTOR DE PAREDES


Olhou a mancha feia no meio da parede da sala e avisou a dona da casa:
- Vai precisar de três mãos de tinta.
A mulher não gostou:
- Bobagem, duas tá bom demais.
Resolveu não brigar:
- A senhora manda.
E atacou com vontade as paredes.
Duas mãos de tinta depois, a mancha continuava lá. Fraquinha, mas lá.
- Eu não disse? - falou o pintor.
A dona da casa não deu o braço a torcer:
- Não gostei da cor. Ficou muito clara. Vamos mudar.
O pintor gastou mais dois dias e mais duas mãos de tinta para deixar a sala roxa.
Um horror.
- Ficou ótimo - falou a mulher.
Mas ele não escutou. 
Olhava mais uma mancha no teto do corredor.
Outra danada que só ia sair com três mãos de tinta.