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A LEI DO SILÊNCIO


Morava no décimo andar, ou seja, o último.
Reclamava de todo e qualquer barulho: cachorro latindo, gato miando, criança chorando, televisão alta, pássaros cantando, caminhão de gás...
O zelador não aguentava mais.
O síndico, então...
Os vizinhos de seu andar já nem o cumprimentavam.
O de baixo, numa reunião do condomínio, quase quebrou uma cadeira em sua cabeça.
Seu mau humor durou anos.
Sua intolerância tornou-o famoso na rua.
A molecada fugia quando ele chegava com seu Gol prateado.
Os porteiros do prédio nem ousavam olhar para ele quando ele saía ou entrava.
E a vida seguiu assim por vários anos, até que um dia...
Foi bem naquela hora em que o pessoal ia trabalhar, de manhã bem cedo. 
Mais de dez pessoas foram testemunhas de sua derrocada, ali no pátio, ao lado do parquinho com seus brinquedos desgastados.
Ele até que tentou se safar, mas não deu, pois além de gritar e botar o dedo na sua cara, dona Geralda, a patroa do seu Juvenal, o reclamão, ainda lhe deu uma estrondosa bofetada, daquelas que envergonham por toda a vida qualquer machão.
Depois disso, os cachorros latiram à vontade, os gatos miaram como nunca, as crianças choraram até arrebentar os pulmões, o som da televisão virou uma algaravia infernal, os pássaros soltaram a voz e o caminhão de gás soou sua musiquinha até os alto-falantes estourarem.
E o seu Juvenal ficou mudinho.

CHOCOLATE DOCE DEMAIS


Quando pisou na bola pela primeira vez, mandou à patroa rosas vermelhas. Foi perdoado, mas teve de prometer andar na linha.
Na segunda vez, escolheu um arranjo de gérberas
Custou uma nota, porém valeu a pena: o caso ficou por isso mesmo, nem promessa fez.
Na terceira, juntou um cartão com versos mancos às anêmolas que comprou para o amor de sua vida. 
Escorreram lágrimas daquele rosto ingênuo.
Houve uma vez mais, apenas uma.
Achou que se livrava fácil com um buquezinho de pobres margaridas.
Acabou tendo de se consolar do adeus inesperado mastigando os chocolates doces demais que havia guardado para tal eventualidade.

A PAZ DE ESPÍRITO


O pequeno telefone celular tocou.
Não uma, mas duas, três vezes.
Aquele som estridente da campainha que ele não soube escolher.
Depois parou.
Foi só então que tomou coragem para ver o número.
Um número desconhecido.
Quem seria?
Quem teria sido tão insistente para ligar três vezes em seguida?
Procurou esquecer o assunto.
Mas não pôde, porque o telefone gritou novamente por ele.
Alto.
Forte.
Até se calar.
O coração disparado, a mão tremendo, a boca seca, os sinais do pânico.
O silêncio.
O pequeno telefone jogado na mesa, um objeto como qualquer outro, porém capaz de provocar o terror, minúsculo demônio.
Não pensou.
Agiu por instinto, como as bestas.
E só depois de ouvir aquele inconfundível CRAC que fez o monstro ao se despedaçar sob os seus pesados e duros sapatos é que pôde reencontrar a paz de espírito intensamente almejada desde sempre.
Desde que havia comprado, em seis suaves prestações, aquele aparelhinho que lhe prometia o paraíso. 

O HOMEM INSIGNIFICANTE


1
Não era baixo nem alto. Nem gordo nem magro. Não ganhava bem nem mal. Classe média, sustentava a família - mulher e filho - morando num apartamento de dois quartos, 55 metros quadrados, num bairro da periferia, comprado com a ajuda do sogro e do dinheiro do FGTS.
Almoçava fora de casa, ia ao trabalho no Palio 99 que levava uma vez por ano ao mecânico - de confiança - perto da padaria. Voltava só depois das 8 horas da noite. Comia alguma coisa que a mulher tinha feito no almoço, via o Jornal Nacional, lia a Folha, que comprava religiosamente na banca perto do emprego.
Dormia um sono agitado, tinha a pressão alta, mas não consultava nenhum médico. Preferia o remédio que o farmacêutico lhe vendia, com a garantia de que era um lançamento, tiro e queda e tal. Consultava a bula e fingia sacar tudo aquilo que as letrinhas prometiam e advertiam.
2
O dia em que voltou para casa com o coração disparado, quase na boca, a adrenalina solta no corpo cansado, começou com nuvens e terminou com chuva.
E foi a chuva a responsável por tudo.
Se o asfalto da rua do posto de gasolina onde, por R$ 60 mensais guardava seu Palio, estivesse seco, talvez,
muito provavelmente,
com certeza absoluta,
aquele Gol verde tivesse parado apenas poucos metros depois de ter as rodas travadas pela ação instintiva do seu motorista que meteu o pé no freio quando o moleque largou a mão gorducha da mãe e correu desembestado sabe-se-lá-para-que-direção apenas que era para onde não deveria ir ou seja:
o meio da rua com o asfalto molhado e escorregadio.
A buzina estridente fez com que virasse a cabeça para a esquerda e fosse atingido de frente por pingos d'água agressivos e gelados. Aí, nesse instante, seu olhar se congelou numa cena de cinema, uma tragédia descolorida pelo anoitecer precoce devido às nuvens opressivas daquele dia úmido.
pensou
não pensou
e se atirou com toda a força que pôde ao encontro daquela figurinha de vermelho e verde e tão viva que se movia como um personagem desarticulado de desenho animado.
3
Ao tocar a campainha do apartamento no sexto andar não esperava que sua mulher fosse se atirar em seus braços e dizer eu te amo como nos filmes.
Nem que seu seu filho viesse lhe contar que era o melhor aluno da escola que custava mais que o salário mínimo por mês e não tolerava mensalidades atrasadas.
Nada disso.
Sabia que naquela noite o sofá desbotado,
as cadeiras meio bambas,
a parede de cor indefinida,
os talheres gastos,
o prato lascado,
a comida insossa,
as notícias velhas da televisão e do jornal
e até mesmo o beijo mecânico de sua mulher murcha e sem graça e a indiferença ingênua de seu filho raquítico e pálido
teriam um gosto único e especial.
Porque naquela noite ele não era o homem insignificante que acostumara toda a sua vida a ser.





DUAS CARAS



Do lado direito era feio, duro e implacável.
Do lado esquerdo contrariava a lógica e se sentia humano.
No primeiro passo esmagava qualquer vida que se pusesse à frente.
No segundo, ultrapassava os limites e chegava a flutuar.
O primeiro gole queimava.
O segundo aplacava o fogo.
No espelho, o que via era só um rosto.
No travesseiro, fechava os olhos e sonhava com anjos.
Era certo de dia
e errado de noite.
Sentia a alegria dos palhaços
e a tristeza dos desenganados.
Passeava por praias, montanhas, estradas sem fim e cidades encantadas.
Trancava-se no sótão escuro habitado por fantasmas ancestrais.
Comia e bebia com prazer.
Maltratava seu corpo com a tortura da sede e da fome.
Corria.
Parava.
Subia.
Descia.
Se fosse preciso calaria as injustiças do mundo com sua voz embargada de emoção e fúria.
Mas nunca faria nada que pusesse em risco sua tranqüila e segura concordância com tudo.
Num certo dia de sol, depois de se mover solto e leve pela praça que separava sua casa da estação do metrô, foi subitamente abordado por dois pivetes que
primeiro deram um murro no seu estômago,
depois chutaram suas costelas quando estava no chão
e, por fim, saíram rindo como se nada tivesse acontecido, levando sua carteira com 150 mangos, cartões de crédito e débito, documentos e outras coisas de menor importância.
Foi aí que quis rir,
mas apenas chorou.



PORRADA


Era ruim de pequeno. 
Botava fogo em gato, cortava rabo de lagartixa, maltratava o irmão menor e chutava a perna da mãe quando ela lhe dava umas palmadas.
Grande, sempre que podia, continuava com as maldades.
Passava com seu carrão por debaixo de um viaduto quando viu dois sujeitos mulambentos deitados debaixo de um cobertor imundo.
Parou o carro, desceu e foi falando:
- Olha aqui, uma nota de cem reais para quem ganhar uma luta entre os dois. É vale-tudo mesmo, quero ver sangue.
Os dois se olharam, se levantaram, foram se chegando meio desconfiados e, quando estavam bem pertos, encheram o playboizinho de porrada.
Ele ficou no chão, sangrando e gemendo.
Perdeu a nota de cem, a carteira com mais 250, todos os documentos e, é claro, o carrão preto quase novo, que só viu arrancar num tranco e sumir na avenida longa e deserta.



TELEFONE SEM FIO


- Você viu? A mulher do patrão entrou na sala dele e saiu de lá na maior pressa...
- ...Saiu de lá chorando à beça...
- ...Parece que o filho deles foi pego fumando um cigarro...
- ...Com maconha no carro...
-...Resolveram tirar um mês de férias...
- ...O garoto vai ficar com uma tia...
- ...Numa casa completamente vazia...
- Tenho tanta pena dessa família!




QUARTETO DE CORDAS


O quarteto sempre havia se dado bem.
Até o dia em que o segundo violino esticou a corda demais - o primeiro violino achou aquilo um insulto.
A viola se incomodou e entrou na discussão: reclamou uma autoridade que foi contestada pelo grave violoncelo.
No meio da sonata o pau quebrou feio.
E não houve Brahms que desse jeito nem Beethoven que consertasse o estrago ou Mozart que restabelecesse a ordem.
A paz chegou apenas quando baixou um Pixinguinha com seu jeito manso de insinuar a melodia e sua maestria em prever o tempo certo para qualquer compasso.
Ou seja, o recital teve um fim imprevisto, mas satisfatório.
E todos voltaram felizes para casa.
Menos o piano, que permaneceu mudo, porque não tinha nada a ver com aquela confusão toda.




GIGANTE

Baixinho, tampinha, nanico, meia dose, chaveirinho, goleiro de pebolim, pintor de rodapé, piloto de autorama, caçador de lagartixa, amostra grátis, salva-vidas de aquário, maquinista de ferrorama .
Ouviu isso a vida inteira. Às vezes ria. Depois chorava de raiva. Mas aguentou calado. Os anos se passaram, subiu na vida. Era pequeno, mas importante. Estudou, deu duro, trabalhou feito um burro (ops, um burrinho), foi duro com os amigos (poucos), fez inimigos (muitos) e hoje sabia que era invejado.
Apesar do metro e meio de altura.
E, mais que invejado, respeitado.
Por isso estava orgulhoso de ter sido convidado para a cerimônia de assinatura do contrato da firma em que trabalhava com aquela multinacional poderosa, distante, fria e exigente. Contrato que tinha redigido, modificado, corrigido, linha por linha, palavra por palavra, vírgula por vírgula. Um triunfo que atingia, naquele momento, seu auge.
- Com a palavra, agora, o dr. Gilmar Pereira, diretor-presidente da Pereira Edificações. Palmas merecidas.
Os fotógrafos e cinegrafistas se atropelaram na busca do melhor ângulo.
- Senhoras e senhores, é com muita satisfação que recebo cada um de vocês nesta humilde casa para anunciar que fechamos o contrato para a construção do maior empreendimento imobiliário de nossa cidade, com nada mais nada menos que a Empire Investments. Todos os detalhes do negócio serão dados posteriormente pelo nosso diretor-financeiro, o dr. José Ribeiro. Quero também, neste momento, agradecer ao nosso diretor-jurídico, o dr. Bráulio Gimenez, que empreendeu uma tarefa hercúlea, à altura de seu enorme, imenso, gigantesco talento...
O que se seguiu depois teve várias versões. Mas ficou mesmo a que saiu no Jornal de Notícias: "A determinada altura do discurso do diretor-presidente da empresa, justamente na parte em que era elogiado pelo seu 'enorme, imenso, gigantesco talento', o diretor-jurídico, dr. Bráulio Gimenez, começou a xingar o seu patrão, entre outros palavrões impublicáveis, com gritos de 'filho da p..., gigante é a mãe', antes de agredí-lo com chutes e socos e ser, finalmente, contido e dominado pelos seguranças."
O estilo pode ser ruim, mas a descrição foi fiel aos fatos.
O jornal fez ainda a ressalva de que o dr. Bráulio Gimenez, justamente devido aos meses de trabalho exaustivo que tivera para concluir o contrato com a Empire Investments, havia sido vítima de um colapso nervoso.
Informou também que ele estava tomando uma medicação muito forte, "capaz de reações imprevistas se adicionada a bebidas alcoólicas", como explicou seu médico particular, o dr. Bento José Dias.
E testemunhas juram que viram o dr. Bráulio Gimenez pedir pelo menos três doses de uísque no coquetel que antecedeu o discurso do patrão.
"E doses duplas, que derrubariam até um homem de tamanho normal", disse um dos convidados ao repórter do Jornal de Notícias.



A FONTE DA JUVENTUDE


Quando notou que os cabelos negros de sua mulher estavam mais bonitos com o tom prateado que haviam adquirido nos últimos anos, tomou a decisão de não procurar mais saber, diariamente, na frente do espelho, com os olhos míopes arregalados, se a barba estava ficando mais branca.
Percebeu que essas mudanças não eram apenas exteriores.
Sentia o coração leve, a alma solta, o espírito em paz.
E, assim, abandonou definitivamente qualquer esperança de se tornar eternamente jovem.




É CAMPEÃO!

- E goool!!!
Batido o último e definitivo pênalti, Romualdo gritou, pulou, cantou e saiu do estádio com a multidão de torcedores inebriados.
Entrou no carro, engatou a primeira, a segunda, a terceira e quando viu, estava no meio do trânsito buzinando e buzinando ao ritmo do "é campeão!" que ouvia dos alucinados passantes vestindo a camisa branco e preta de seu time, seu amor, sua vida.
Mas a comemoração não podia parar aí. Precisava de mais, muito mais. Quando viu o quarteto de colegas do trabalho sambando na calçada, não teve dúvida, quase os atropelou para depois convidá-los:
- Vamos beber que o Timão merece!
E foram os cinco para o boteco mais perto que encontraram. Nada de cerveja, nem cachaça. Uísque à vontade.
Depois de deixar os quatro no ponto de ônibus, calibrado por cinco doses de Passport, seguiu para casa, ainda buzinando.
Largou o carro na rua mesmo. Pulou a mureta do jardim, abriu a porta sabe-se lá como e se jogou no sofá.
Sentiu um calor repentino correr o corpo inteiro. Levantou e abriu a janela da sala. Respirou o ar frio da madrugada uma, duas, três, várias vezes. A cabeça girava, o estômago começava a embrulhar, mas mesmo assim encheu o pulmão e gritou, com toda a força que tinha:
- Campeão! É campeão!
Ao silêncio que se seguiu, dois cachorros latiram, um gato miou e, antes que fechasse a janela e caísse no carpete sujo da sala, ouviu o vizinho da frente protestar:
- Corintiano filho da puta! Deixa a gente dormir!