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É CARNAVAL



O bloco já havia se dispersado. Não restava mais ninguém, além daquele folião amargurado, naquela rua esquecida nos confins do mundo.

Sim, porque aquele bairro, aquelas casas humildes, aquela cidadezinha perdida no interior do interior, era quase o fim do mundo.

Mas isso não importava. Era Carnaval e todo mundo deveria estar alegre.

Até o latido do cachorro na meia-noite e meia de poucas estrelas no céu parecia ter um som diferente, como se ele também soubesse que era Carnaval e não poderia estar triste - a tristeza não era permitida no Carnaval, mesmo no Carnaval do quase fim do mundo.

Ao latido do cachorro seguiu-se um silêncio que fez o folião solitário sentir uma pontada de melancolia.

Afinal, onde estavam os outros, os amigos da cerveja, da música, da dança, dos beijos sem compromisso, onde foram parar os amigos do Carnaval?

O bloco havia se dispersado e só restava naquela rua escondida que não levava a lugar nenhum um pierrô inconformado com a alegria e prestes a se afogar na tristeza.

Um pierrô náufrago de um Carnaval morto.

PUXA-SACO


Nunca se destacou em nada. Ou quase - era mestre em uma apenas coisa, bajular.

Fazia isso de forma sutil, quase com indiferença. O alvo nem desconfiava que estava sendo manipulado. 

Anos e anos de notável persistência nessa requintada arte do puxa-saquismo fizeram dele um respeitável membro da comunidade, um destacado chefe de seção na firma que o acolheu como a um parente querido.

Dizia a si mesmo, nessa altura da vida em que os cabelos começam a branquear, que tivera sucesso.

Sua mulher era apática e insossa, mas lhe deu dois filhos, orgulho e prova de que o caminho que escolhera fora o correto.

Certo dia, recebeu um telefonema da diretora da escola dos meninos. 

- Preciso falar com o sr. - ela disse. É sobre o Joãozinho.

O Joãozinho era o filho mais novo.

Na abafada sala da diretora, cumprimento feito - "Espero que a sra. e sua família estejam bem... Estou às suas ordens..." - sentou-se. 

A diretora foi curta e grossa:

- Seu filho está tendo um comportamento abominável. Suas notas são medíocres, o sr. deve saber. Talvez por isso é que todo dia ele traz um presente qualquer, uma bobagem, um docinho de leite, um pacote de salgadinhos, para a professora. Foi ela que me alertou disso, já está incomodada. É quase um bullying.

Se fez de surpreso, prometeu falar com o filho, pediu desculpas, só faltou chorar.

Em casa, chamou o Joãozinho. Tascou um beijo na testa, disse que ia aumentar a mesada e por fim deu um conselho que o garoto levou pela vida afora:

- Puxar o saco não é para qualquer um, meu filho. Mas você é novo, tem tudo para aprender. Com o dinheiro que eu dei, vê se compra uma caixa de chocolate  para a professora. E leve uma rosa a ela. Mulher gosta de flor.

O VEREADOR E O BARBEIRO



O vereador, barriga enorme, cabelos negros de tinta, camisa branca com manchas de gordura, pediu para falar, pegou o microfone, pigarreou e mandou ver com sua voz de locutor de rádio:

- Caros colegas... Ilustres colegas... Excelentíssimos colegas... 

Sentado bem no fundo da plateia, o barbeiro daquela cidadezinha esquecida pelo progresso, o barbeiro que conhecia todos os fios de cabelo, todas as rugas e poros das peles que sua navalha roçava aparando barbas e bigodes, o pequenino barbeiro que ouvia de tudo daqueles homens cansados, insensatos, medrosos, avaros ou boquirrotos, o invisível barbeiro que conhecia segredos e sigilos e desejos daquele povo que ficava à sua disposição horas e horas, dias e dias, o calado barbeiro que fazia das sessões da Câmara Municipal a sua diversão semanal, coçou a cabeça, virou-se para o lado - onde não havia ninguém - e a ninguém confidenciou:

- Faz pose aqui, em casa é frouxo. E leva chifre da mulher.

E então se acomodou na cadeira. E continuou calado, rindo por dentro.

MILAGRE



Leu no jornal que café no máximo três xícaras por dia.

Que carne vermelha dava câncer.

Gema de ovo, então, aumentava o colesterol.

Pão e macarrão, nossa, explodiam a glicemia.

Era tanta ciência que começou a ter medo de tudo.

Até que lembrou que, criança ainda, não ouviu o que sua mãe repetia toda hora e comeu manga com leite.

Era para ter morrido.

Estava vivo, 50 anos depois. 

Um milagre, sem dúvida.

Foi então que passou a comer e a beber e a viver como quem acha que não haverá amanhã. 


DE VOLTA AO LAR



Então aquela era a cidade onde havia nascido, crescido, vivido a adolescência e saído de lá assim que pôde, assim que sua cabeça conheceu sonhos e esperanças?

Mas aquela não era mais a cidade que havia abandonado por ser tão pequena, tão fechada ao mundo, tão indiferente aos gritos de todos os rebeldes, ou mesmo de todos os inconformados, ou mesmo de todos os desajeitados.

Não, aquela não era mais a cidade onde os passarinhos se misturavam às folhas das árvores e as folhas das árvores caíam no chão da praça e formavam um tapete mágico que levantava voo com o vento, o vento das noites, o vento das manhãs, o vento das tardes, as frias tardes, as frias manhãs, as frias noites.

E se tudo estava mudado, por que tudo parecia igual?

E por que a solidão da solitária estátua do benfeitor dos pobres, do defensor dos miseráveis, estava ainda mais sozinha no meio daquela praça devastada pela indiferença e arruinada pelo desprezo?

Passou os olhos pela paisagem daquela cidade que um dia foi sua, daquele seu lar que o aqueceu por muitos invernos, e por fim, depois de vislumbrar nas sombras dos postes e na geometria das esquinas um resquício de saudade, achou a resposta para o mistério da transformação:

- Está tudo igual a antes. Quem mudou fui eu.

SOFRIMENTO



Retorcia-se na cadeira como se estivesse tendo o mais pavoroso pesadelo.

Sentia, no fundo da alma, que não iria suportar tamanha dor, a que já sentia e a que viria, inevitavelmente, a sentir dentro em pouco.

Lamentava ser, no fundo da alma, esse covarde que sempre tinha sido e sempre iria ser.

Mas, fazer o quê?

Fazer o que, senão suportar, miseravelmente, tamanho sofrimento?

Levou um susto quando uma forte luz se acendeu em frente ao rosto pálido.

E outro quando ouviu uma voz dizer:

- Abra a boca, por favor. Vou dar uma espetadinha na gengiva. Mas não deve doer nada. O senhor não tem alergia à anestesia, tem?

Não soube responder. Estava paralisado de medo.

HOMENS E BEBÊS


Fingia que não se importava com os xingamentos, os terríveis palavrões, as ameaças de todo tipo, e até mesmo as fracas agressões que recebia do frágil corpo daquele homem, o seu paciente, sua fonte de renda exclusiva depois que foi demitida da Casas Bahia.

Havia investido uma boa parte do que recebera pela dispensa num curso de cuidadora de idosos. 

Achava que levava jeito para a coisa, gostava de crianças e velhinhos, sentia orgulho em dizer que esteve presente, dia e noite, no último ano de vida de seu pai.

Mas nunca esperara ter de cuidar de alguém como aquele homem, alma ruim.

Era só ajudá-lo a se levantar da cama, ou da poltrona, ou dar comida a ele, ou despi-lo para tomar banho, ou, enfim, fazer qualquer coisa que uma cuidadora tem de fazer com seu paciente, que ele se transformava, virava um demônio.

- Filha da puta! Vai embora, você é horrível!

Era uma agonia.

E não adiantava reclamar com a filha daquele homem:

- Não ligue, ele não fala por mal, isso é da doença.

Quando chegava em casa, chorava de nervosa.

Até que um dia percebeu que se continuasse com aquele homem iria ficar doente - nem dormia direito mais.

Pediu a conta.

E resolveu tentar um novo ofício: foi ser babá.

- As crianças choram, mas não dizem palavrão. De resto, aprendi a fazer quase tudo que um bebê precisa: dou comida, banho, troco a fralda... - explicou para a vizinha, sua boa amiga.

Foi, enfim, feliz.