O ÚLTIMO TORCEDOR


A bandeira era um farrapo só.
Como seu time.
O pior entre os piores.
Um saco de pancadas.
De vexame em vexame, de goleada em goleada, sobraram sete jogadores, três torcedores, e um cachorro magro e feio que abanava o rabo quando o juiz apitava falta, pênalti, escanteio, tiro de meta, gooool.
Nem técnico havia.
As camisas do uniforme estavam cheias de buracos, a cor indefinida entre um pálido amarelo e um branco acizentado.
Ninguém tinha chuteira.
Quando o jogo começava a derrota surgia inexorável e imensa em todos os cantos, em todos os rostos, em todos os lances grotescos daquele time despedaçado.
Os três torcedores viraram dois - Altamiro desesperou-se e mudou de bairro para ficar longe da humilhação -; Bento trocou a paixão do futebol pelo corpo da mulata Joana.
Sobrou ele, o obstinado, o último torcedor.
- Homem que é homem não muda de time - dizia a quem estranhava sua obsessão pela derrota.
Mas o tempo passou depressa, o campo esburacado onde tanta raiva e vergonha foram plantadas virou um condomínio de luxo, cinco altas torres de prédios indiferentes aos dribles e fintas que incontáveis craques anônimos deram às vicissitudes da vida.
O time se foi, cada um por si, cada qual para o lado que achou melhor.
E ele, o abnegado, se sentiu traído, se sentiu roubado.
- Meu time me abandonou, mas eu nunca vou abandonar meu time - falava em voz alta, a mesma voz com que xingava o juiz, os bandeirinhas, o goleiro do adversário, para quem quisesse ouvir.

A LEI DO SILÊNCIO


Morava no décimo andar, ou seja, o último.
Reclamava de todo e qualquer barulho: cachorro latindo, gato miando, criança chorando, televisão alta, pássaros cantando, caminhão de gás...
O zelador não aguentava mais.
O síndico, então...
Os vizinhos de seu andar já nem o cumprimentavam.
O de baixo, numa reunião do condomínio, quase quebrou uma cadeira em sua cabeça.
Seu mau humor durou anos.
Sua intolerância tornou-o famoso na rua.
A molecada fugia quando ele chegava com seu Gol prateado.
Os porteiros do prédio nem ousavam olhar para ele quando ele saía ou entrava.
E a vida seguiu assim por vários anos, até que um dia...
Foi bem naquela hora em que o pessoal ia trabalhar, de manhã bem cedo. 
Mais de dez pessoas foram testemunhas de sua derrocada, ali no pátio, ao lado do parquinho com seus brinquedos desgastados.
Ele até que tentou se safar, mas não deu, pois além de gritar e botar o dedo na sua cara, dona Geralda, a patroa do seu Juvenal, o reclamão, ainda lhe deu uma estrondosa bofetada, daquelas que envergonham por toda a vida qualquer machão.
Depois disso, os cachorros latiram à vontade, os gatos miaram como nunca, as crianças choraram até arrebentar os pulmões, o som da televisão virou uma algaravia infernal, os pássaros soltaram a voz e o caminhão de gás soou sua musiquinha até os alto-falantes estourarem.
E o seu Juvenal ficou mudinho.

CHOCOLATE DOCE DEMAIS


Quando pisou na bola pela primeira vez, mandou à patroa rosas vermelhas. Foi perdoado, mas teve de prometer andar na linha.
Na segunda vez, escolheu um arranjo de gérberas
Custou uma nota, porém valeu a pena: o caso ficou por isso mesmo, nem promessa fez.
Na terceira, juntou um cartão com versos mancos às anêmolas que comprou para o amor de sua vida. 
Escorreram lágrimas daquele rosto ingênuo.
Houve uma vez mais, apenas uma.
Achou que se livrava fácil com um buquezinho de pobres margaridas.
Acabou tendo de se consolar do adeus inesperado mastigando os chocolates doces demais que havia guardado para tal eventualidade.

PAPO DE ELEVADOR


Não contei ainda, mas o prédio que leva o nome de Condomínio Feliz Cidade já é entrado nos anos. Desconfio que passou dos 30. Aqui, as coisas funcionam mais ou menos, são temperamentais, às vezes empacam e não querem sair do lugar.
Como os elevadores.
Ontem foi a vez do social quebrar. 
Comigo dentro. Por sorte, não estava sozinho. Minha companheira de viagem era a filha da dona Lúcia, do 53, a Izildinha, que tem, calculo, 15 anos.
Nos 20 minutos que ficamos juntos enquanto o Zé não veio nos resgatar, pude conhecer um pouco dela.
Conversamos - algo raro entre os moradores deste prédio - e, por incrível que pareça, vi que a Izildinha não é uma adolescente comum - como a minha filha, por exemplo.
Conheci uma pessoa preocupada com a família, com o futuro do país - e com a sua própria vida.
Só não entendi quando ela me disse que gostava de morar aqui e que lamentava o estado de conservação do condomínio. 

Sempre pensei que os jovens sonhassem em ir embora de suas casas o mais cedo possível.
Antes de nos despedimos, a Izildinha me falou que iria escrever "poucas e boas" no livro de sugestões que fica mofando na portaria.
Queria ter a coragem da Izildinha. 
Mas infelizmente não sou jovem como ela. 
O tempo nos dá sabedoria e nos tira a coragem.
(Capítulo 6 da mininovela "Condomínio Feliz Cidade")

A PAZ DE ESPÍRITO


O pequeno telefone celular tocou.
Não uma, mas duas, três vezes.
Aquele som estridente da campainha que ele não soube escolher.
Depois parou.
Foi só então que tomou coragem para ver o número.
Um número desconhecido.
Quem seria?
Quem teria sido tão insistente para ligar três vezes em seguida?
Procurou esquecer o assunto.
Mas não pôde, porque o telefone gritou novamente por ele.
Alto.
Forte.
Até se calar.
O coração disparado, a mão tremendo, a boca seca, os sinais do pânico.
O silêncio.
O pequeno telefone jogado na mesa, um objeto como qualquer outro, porém capaz de provocar o terror, minúsculo demônio.
Não pensou.
Agiu por instinto, como as bestas.
E só depois de ouvir aquele inconfundível CRAC que fez o monstro ao se despedaçar sob os seus pesados e duros sapatos é que pôde reencontrar a paz de espírito intensamente almejada desde sempre.
Desde que havia comprado, em seis suaves prestações, aquele aparelhinho que lhe prometia o paraíso. 

ERA UMA VEZ UM GOL PRATA


E não é que o Zé, o porteiro ranzinza que ficou meu amigo depois que, por pura sorte, arranjei, entre aspas, um emprego para a sua filha na firma onde trabalho, já retribuiu o favor?
Ele me deu uma dica importante:
- Seu Carlos, tem um pessoal estranho rondando o quarteirão nesses dias. É bom o senhor tomar cuidado: seu carro não é novo, mas não é bom dar bobeira.
O carro a que ele gentilmente se referiu é um Uno 97 já bem rodado, que deixo na rua para poder alugar a garagem e garantir um dinheirinho extra para a feira. Não tenho seguro porque, além de caro, sempre achei que ladrão nenhum iria se entusiasmar pela minha condução - automóvel, definitivamente, aquilo não é.
Mas fiquei atento à dica do Zé. Comprei uma supertrava - a propaganda jura que com ela ninguém pode - e bati um papo com o Barbosa, o porteiro que atravessa a madrugada:
- É bom você ficar acordado, telefone na mão, bem esperto.
Minha rua é tranquila, mas nunca se sabe. Ou melhor, o Zé sabia: não é que duas noites depois de seu aviso um alarme disparou, acordou meio mundo e batata! - levaram o Gol prata lindo lindo do filho do seu Antenor do 43.
A polícia passou pelo prédio, não fez absolutamente nada, só assustou a vizinhança.
Hoje em dia esse pessoal que tem dinheiro para pagar seguro dorme sossegado.
Dinheiro é bom, compra segurança, entre outras coisas.
Como tenho só o suficiente para ir levando, me contento com esse Uno 97 que nem ladrão pé de chinelo quer.
Ainda bem, sem ele estaria perdido. Para garantir vou arranjar mais uma trava - e, quem sabe, mandar instalar um desses alarmes estridentes.
E rezar para que ele não toque nunca.
(Capítulo 5 da mininovela "Condomínio Feliz Cidade")



O HOMEM INSIGNIFICANTE


1
Não era baixo nem alto. Nem gordo nem magro. Não ganhava bem nem mal. Classe média, sustentava a família - mulher e filho - morando num apartamento de dois quartos, 55 metros quadrados, num bairro da periferia, comprado com a ajuda do sogro e do dinheiro do FGTS.
Almoçava fora de casa, ia ao trabalho no Palio 99 que levava uma vez por ano ao mecânico - de confiança - perto da padaria. Voltava só depois das 8 horas da noite. Comia alguma coisa que a mulher tinha feito no almoço, via o Jornal Nacional, lia a Folha, que comprava religiosamente na banca perto do emprego.
Dormia um sono agitado, tinha a pressão alta, mas não consultava nenhum médico. Preferia o remédio que o farmacêutico lhe vendia, com a garantia de que era um lançamento, tiro e queda e tal. Consultava a bula e fingia sacar tudo aquilo que as letrinhas prometiam e advertiam.
2
O dia em que voltou para casa com o coração disparado, quase na boca, a adrenalina solta no corpo cansado, começou com nuvens e terminou com chuva.
E foi a chuva a responsável por tudo.
Se o asfalto da rua do posto de gasolina onde, por R$ 60 mensais guardava seu Palio, estivesse seco, talvez,
muito provavelmente,
com certeza absoluta,
aquele Gol verde tivesse parado apenas poucos metros depois de ter as rodas travadas pela ação instintiva do seu motorista que meteu o pé no freio quando o moleque largou a mão gorducha da mãe e correu desembestado sabe-se-lá-para-que-direção apenas que era para onde não deveria ir ou seja:
o meio da rua com o asfalto molhado e escorregadio.
A buzina estridente fez com que virasse a cabeça para a esquerda e fosse atingido de frente por pingos d'água agressivos e gelados. Aí, nesse instante, seu olhar se congelou numa cena de cinema, uma tragédia descolorida pelo anoitecer precoce devido às nuvens opressivas daquele dia úmido.
pensou
não pensou
e se atirou com toda a força que pôde ao encontro daquela figurinha de vermelho e verde e tão viva que se movia como um personagem desarticulado de desenho animado.
3
Ao tocar a campainha do apartamento no sexto andar não esperava que sua mulher fosse se atirar em seus braços e dizer eu te amo como nos filmes.
Nem que seu seu filho viesse lhe contar que era o melhor aluno da escola que custava mais que o salário mínimo por mês e não tolerava mensalidades atrasadas.
Nada disso.
Sabia que naquela noite o sofá desbotado,
as cadeiras meio bambas,
a parede de cor indefinida,
os talheres gastos,
o prato lascado,
a comida insossa,
as notícias velhas da televisão e do jornal
e até mesmo o beijo mecânico de sua mulher murcha e sem graça e a indiferença ingênua de seu filho raquítico e pálido
teriam um gosto único e especial.
Porque naquela noite ele não era o homem insignificante que acostumara toda a sua vida a ser.





DUAS CARAS



Do lado direito era feio, duro e implacável.
Do lado esquerdo contrariava a lógica e se sentia humano.
No primeiro passo esmagava qualquer vida que se pusesse à frente.
No segundo, ultrapassava os limites e chegava a flutuar.
O primeiro gole queimava.
O segundo aplacava o fogo.
No espelho, o que via era só um rosto.
No travesseiro, fechava os olhos e sonhava com anjos.
Era certo de dia
e errado de noite.
Sentia a alegria dos palhaços
e a tristeza dos desenganados.
Passeava por praias, montanhas, estradas sem fim e cidades encantadas.
Trancava-se no sótão escuro habitado por fantasmas ancestrais.
Comia e bebia com prazer.
Maltratava seu corpo com a tortura da sede e da fome.
Corria.
Parava.
Subia.
Descia.
Se fosse preciso calaria as injustiças do mundo com sua voz embargada de emoção e fúria.
Mas nunca faria nada que pusesse em risco sua tranqüila e segura concordância com tudo.
Num certo dia de sol, depois de se mover solto e leve pela praça que separava sua casa da estação do metrô, foi subitamente abordado por dois pivetes que
primeiro deram um murro no seu estômago,
depois chutaram suas costelas quando estava no chão
e, por fim, saíram rindo como se nada tivesse acontecido, levando sua carteira com 150 mangos, cartões de crédito e débito, documentos e outras coisas de menor importância.
Foi aí que quis rir,
mas apenas chorou.



PORRADA


Era ruim de pequeno. 
Botava fogo em gato, cortava rabo de lagartixa, maltratava o irmão menor e chutava a perna da mãe quando ela lhe dava umas palmadas.
Grande, sempre que podia, continuava com as maldades.
Passava com seu carrão por debaixo de um viaduto quando viu dois sujeitos mulambentos deitados debaixo de um cobertor imundo.
Parou o carro, desceu e foi falando:
- Olha aqui, uma nota de cem reais para quem ganhar uma luta entre os dois. É vale-tudo mesmo, quero ver sangue.
Os dois se olharam, se levantaram, foram se chegando meio desconfiados e, quando estavam bem pertos, encheram o playboizinho de porrada.
Ele ficou no chão, sangrando e gemendo.
Perdeu a nota de cem, a carteira com mais 250, todos os documentos e, é claro, o carrão preto quase novo, que só viu arrancar num tranco e sumir na avenida longa e deserta.



TELEFONE SEM FIO


- Você viu? A mulher do patrão entrou na sala dele e saiu de lá na maior pressa...
- ...Saiu de lá chorando à beça...
- ...Parece que o filho deles foi pego fumando um cigarro...
- ...Com maconha no carro...
-...Resolveram tirar um mês de férias...
- ...O garoto vai ficar com uma tia...
- ...Numa casa completamente vazia...
- Tenho tanta pena dessa família!




QUARTETO DE CORDAS


O quarteto sempre havia se dado bem.
Até o dia em que o segundo violino esticou a corda demais - o primeiro violino achou aquilo um insulto.
A viola se incomodou e entrou na discussão: reclamou uma autoridade que foi contestada pelo grave violoncelo.
No meio da sonata o pau quebrou feio.
E não houve Brahms que desse jeito nem Beethoven que consertasse o estrago ou Mozart que restabelecesse a ordem.
A paz chegou apenas quando baixou um Pixinguinha com seu jeito manso de insinuar a melodia e sua maestria em prever o tempo certo para qualquer compasso.
Ou seja, o recital teve um fim imprevisto, mas satisfatório.
E todos voltaram felizes para casa.
Menos o piano, que permaneceu mudo, porque não tinha nada a ver com aquela confusão toda.




GIGANTE

Baixinho, tampinha, nanico, meia dose, chaveirinho, goleiro de pebolim, pintor de rodapé, piloto de autorama, caçador de lagartixa, amostra grátis, salva-vidas de aquário, maquinista de ferrorama .
Ouviu isso a vida inteira. Às vezes ria. Depois chorava de raiva. Mas aguentou calado. Os anos se passaram, subiu na vida. Era pequeno, mas importante. Estudou, deu duro, trabalhou feito um burro (ops, um burrinho), foi duro com os amigos (poucos), fez inimigos (muitos) e hoje sabia que era invejado.
Apesar do metro e meio de altura.
E, mais que invejado, respeitado.
Por isso estava orgulhoso de ter sido convidado para a cerimônia de assinatura do contrato da firma em que trabalhava com aquela multinacional poderosa, distante, fria e exigente. Contrato que tinha redigido, modificado, corrigido, linha por linha, palavra por palavra, vírgula por vírgula. Um triunfo que atingia, naquele momento, seu auge.
- Com a palavra, agora, o dr. Gilmar Pereira, diretor-presidente da Pereira Edificações. Palmas merecidas.
Os fotógrafos e cinegrafistas se atropelaram na busca do melhor ângulo.
- Senhoras e senhores, é com muita satisfação que recebo cada um de vocês nesta humilde casa para anunciar que fechamos o contrato para a construção do maior empreendimento imobiliário de nossa cidade, com nada mais nada menos que a Empire Investments. Todos os detalhes do negócio serão dados posteriormente pelo nosso diretor-financeiro, o dr. José Ribeiro. Quero também, neste momento, agradecer ao nosso diretor-jurídico, o dr. Bráulio Gimenez, que empreendeu uma tarefa hercúlea, à altura de seu enorme, imenso, gigantesco talento...
O que se seguiu depois teve várias versões. Mas ficou mesmo a que saiu no Jornal de Notícias: "A determinada altura do discurso do diretor-presidente da empresa, justamente na parte em que era elogiado pelo seu 'enorme, imenso, gigantesco talento', o diretor-jurídico, dr. Bráulio Gimenez, começou a xingar o seu patrão, entre outros palavrões impublicáveis, com gritos de 'filho da p..., gigante é a mãe', antes de agredí-lo com chutes e socos e ser, finalmente, contido e dominado pelos seguranças."
O estilo pode ser ruim, mas a descrição foi fiel aos fatos.
O jornal fez ainda a ressalva de que o dr. Bráulio Gimenez, justamente devido aos meses de trabalho exaustivo que tivera para concluir o contrato com a Empire Investments, havia sido vítima de um colapso nervoso.
Informou também que ele estava tomando uma medicação muito forte, "capaz de reações imprevistas se adicionada a bebidas alcoólicas", como explicou seu médico particular, o dr. Bento José Dias.
E testemunhas juram que viram o dr. Bráulio Gimenez pedir pelo menos três doses de uísque no coquetel que antecedeu o discurso do patrão.
"E doses duplas, que derrubariam até um homem de tamanho normal", disse um dos convidados ao repórter do Jornal de Notícias.



A FONTE DA JUVENTUDE


Quando notou que os cabelos negros de sua mulher estavam mais bonitos com o tom prateado que haviam adquirido nos últimos anos, tomou a decisão de não procurar mais saber, diariamente, na frente do espelho, com os olhos míopes arregalados, se a barba estava ficando mais branca.
Percebeu que essas mudanças não eram apenas exteriores.
Sentia o coração leve, a alma solta, o espírito em paz.
E, assim, abandonou definitivamente qualquer esperança de se tornar eternamente jovem.




ZÁS-TRÁS



Era pretinho, ficava nos cantos quieto, medroso, à espera da oportunidade, à mercê do desejo, da fome, os olhos brilhando como tições, o nariz caçando odores, a língua uma lixa seca, as garras recolhidas, prontas para virar punhais.
Era pequeno, pretinho, quieto.
Nos cantos, quieto.
Até que um descuidado pardal desceu do galho e foi, inocente, bicar um pedacinho de pão mal varrido perto da porta da cozinha.
Bastou um segundo.
Um zás, um trás, um pulo no pátio inundado de sol.
E foi o bote de uma pantera, negra, imponente, inundada de sol.
Era pretinho, quieto, pequeno.



SEQUESTRO POR TELEFONE


- Alô, é o Celso? Quero falar com o Celso.
-É ele, pode falar.
- O senhor ama a sua filha?
- Não tenho filha.
- Mas o senhor ama a sua filha?
- Já falei que não tenho filha.
- Ah, não? Mas, bem, o senhor ama a sua mulher?
- Claro, estou casado com ela há 20 anos.
- E não tem filha?
- Nem filho. E daí? Afinal, o que o senhor quer?
- É sobre a sua mulher...
- O que tem a minha mulher?
- O senhor ama a sua mulher?
- O senhor já me perguntou isso.
- É que nós estamos com a sua mulher.
- Nós quem?
- Ah, isso eu não posso falar.
- Então vou ter de desligar. Não sei quem é o senhor nem o que quer.
- É sobre a sua mulher...
- Mas que é que tem a minha mulher?
- Nós estamos com ela e se o senhor a ama...
- Mas que raio de história é essa de eu amar a minha mulher?
- Não, veja, se o senhor a ama... É que nós estamos com ela...
- E daí? Ela pode ficar com quem quiser. É minha mulher, mas pouco me importa quem são seus amigos.
- Mas nós não somos amigos dela.
- E não me importa quem são seus inimigos.
- É que estamos com sua mulher e se o senhor a ama e a quiser de volta, vai ter de pagar para nós dez mil reais.
- Pagar para ter a minha mulher de volta? Mas o que é isso?
- O senhor não entendeu? Nós seqüestramos a sua mulher e se o senhor quiser ter ela de volta, vai ter de pagar...
- Dez mil reais? A minha mulher vale dez mil reais? Nem eu valho isso.
- Bom, pode ser menos. Oito mil.
- Nem cinco, nem mil. Para que eu vou querer pagar pela minha mulher? Pago todo dia para ela. Quem é que trabalha aqui nesta casa? É ela? Não senhor, sou eu. Ela só sabe gastar.
- Mas se o senhor ama a sua mulher, vai ter de pagar.
- O senhor respeite a minha mulher. Pagar uma ova. O senhor acha que ela é uma prostituta?
- Não, não disse isso. Só que queremos dez, não, cinco mil reais para soltar a sua mulher, senão...
- O quê? Soltar? Como? Ela está presa? Aprontou alguma? Roubou, matou? Bateu o carro? Estava bêbada?
- Não, não... É que nós a seqüestramos...
- E ela não fez nada? Ficou quieta? Como foi isso? Quero falar com ela agora para resolver esse assunto. Passe já o telefone para ela.
- Mas não é assim que funciona. Não posso deixar o senhor falar com ela. Mas ela está bem.
- Mas é claro que está bem. Não trabalha, gasta o meu dinheiro, vive fofocando com as amigas, não limpa a casa, cozinha com uma má vontade que dá dó e o senhor queria que ela estivesse doente? Que estivesse Cansada? Claro que não. Está é gorda, desmazelada.
- Então, se o senhor quiser que ela volte, vai ter de pagar cinco mil...
- De novo? Como vou ter pagar para ter a minha mulher? Isso é um absurdo! Nem um centavo, nada.
- Mas se o senhor não pagar, nós vamos ter de dar um sumiço nela.
- Como se isso fosse fácil... O senhor diz isso porque não conhece a minha mulher. O senhor não acha que eu já quis sumir com ela umas mil vezes? E sabe o que consegui? Sabe? Ela não larga mais do meu pé, só vive para me encher, faça isso, faça aquilo, não coma isso, não beba aquilo... Um inferno.
- E como nós vamos resolver o assunto?
- Por mim está resolvido. Se o senhor sumir com ela será ótimo para mim que fico livre dela e não gasto mais nada.
- Mas assim nós vamos ficar no prejuízo.
- E eu que estou faz 20 anos no prejuízo? Isso não conta?
- Mas não está certo, não é assim que funciona. O senhor tem de pagar.
- Não pago e além disso mando a conta do que ela gastou este mês com o meu cartão de crédito para o senhor. Qual é o seu endereço, por favor?
- O meu ende... O senhor está louco?
- Faz tempo que estou, casado com essa mulher qualquer um fica louco. O endereço, o CIC e o RG, por favor que eu não quero mais perder meu tempo.
- Não vou dar endereço nem nada. O senhor não sabe que esse negócio de passar números pelo telefone para estranhos é perigoso, que está cheio de malandro e vigarista por aí?
- Se é assim, então vou ter de desligar.
- Tá bom, então até logo.
- Passe bem. E diga para minha mulher vir logo para casa.
- Pode deixar. Será um prazer. Um bom dia para o senhor.

- E para o senhor também.
Fim da ligação.




É CAMPEÃO!

- E goool!!!
Batido o último e definitivo pênalti, Romualdo gritou, pulou, cantou e saiu do estádio com a multidão de torcedores inebriados.
Entrou no carro, engatou a primeira, a segunda, a terceira e quando viu, estava no meio do trânsito buzinando e buzinando ao ritmo do "é campeão!" que ouvia dos alucinados passantes vestindo a camisa branco e preta de seu time, seu amor, sua vida.
Mas a comemoração não podia parar aí. Precisava de mais, muito mais. Quando viu o quarteto de colegas do trabalho sambando na calçada, não teve dúvida, quase os atropelou para depois convidá-los:
- Vamos beber que o Timão merece!
E foram os cinco para o boteco mais perto que encontraram. Nada de cerveja, nem cachaça. Uísque à vontade.
Depois de deixar os quatro no ponto de ônibus, calibrado por cinco doses de Passport, seguiu para casa, ainda buzinando.
Largou o carro na rua mesmo. Pulou a mureta do jardim, abriu a porta sabe-se lá como e se jogou no sofá.
Sentiu um calor repentino correr o corpo inteiro. Levantou e abriu a janela da sala. Respirou o ar frio da madrugada uma, duas, três, várias vezes. A cabeça girava, o estômago começava a embrulhar, mas mesmo assim encheu o pulmão e gritou, com toda a força que tinha:
- Campeão! É campeão!
Ao silêncio que se seguiu, dois cachorros latiram, um gato miou e, antes que fechasse a janela e caísse no carpete sujo da sala, ouviu o vizinho da frente protestar:
- Corintiano filho da puta! Deixa a gente dormir!

DE CARNE E OSSO


Era um mulherão de fechar o comércio.
Longos cabelos morenos, sobrancelhas negras, seios cujas formas voluptuosas a blusa amarelinha deixava adivinhar, calça de jeans apertada, justinha, uma perfeição só.
O caixa do banco estava de olho nela fazia bem uns 15 minutos. 

E contava os segundos para atendê-la.
Finalmente, ela ficou na frente dele, olho no olho, aquela boca carnuda a menos de 30 centímetros da sua boca atônita.
- Pois não - quase gaguejou de tanta emoção, o coração aos pulos, descontrolado.
- O senhor pode depositar esse cheque? Cai na conta hoje? - perguntou, com uma voz de criança, fininha, sem entonação e nenhuma graça.
- Cai, sim - respondeu o caixa, aliviado por ver que a sua deusa era apenas só mais uma mulher.
E antes de chamar o próximo cliente, viu que o relógio da parede marcava 11 e 15 e ele tinha ainda um longo dia pela frente.





SEM PARAR


Furava os semáforos vermelhos igual faca cortando manteiga.
Colava na traseira de quem ia na frente e piscava os faróis até passar.
Pegava a contramão com a inocência das crianças travessas.
Andava na faixa dos ônibus na cidade e nos acostamentos nas estradas.
Não suportava ficar atrás de carro nenhum.
Estacionava nas vagas para idosos no shopping.
Um dia comprou o Sem Parar e no feriado desceu para o litoral.
Excitado, entrou no pedágio a quase 100 por hora.
Quebrou a cancela, quatro dentes e teve escoriações feias no braço direito.
Pior: trocou o capô, o para-brisa e os dois espelhos.
Mais a multa, levou um prejuízo de R$ 5 mil.
E enquanto o sol brilhava na Baixada, ele via na Globo o seu Tricolor perder para o Coringão.
Com dois gols do Ronaldo, o gordo Ronaldo.

PINTOR DE PAREDES


Olhou a mancha feia no meio da parede da sala e avisou a dona da casa:
- Vai precisar de três mãos de tinta.
A mulher não gostou:
- Bobagem, duas tá bom demais.
Resolveu não brigar:
- A senhora manda.
E atacou com vontade as paredes.
Duas mãos de tinta depois, a mancha continuava lá. Fraquinha, mas lá.
- Eu não disse? - falou o pintor.
A dona da casa não deu o braço a torcer:
- Não gostei da cor. Ficou muito clara. Vamos mudar.
O pintor gastou mais dois dias e mais duas mãos de tinta para deixar a sala roxa.
Um horror.
- Ficou ótimo - falou a mulher.
Mas ele não escutou. 
Olhava uma mais uma mancha no teto do corredor.
Outra danada que só ia sair com três mãos de tinta.




NA PRAÇA



Era impossível alguém não notar a figura alta, magra, suja, repulsiva até, que andava de um lado para outro na praça, os braços se abrindo e fechando, a boca se mexendo, tentando formar palavras, frases, sons vagamente humanos.
E quando se aproximava de alguém e estendia a mão, parecia que quase não pertencia mais a este mundo.
- Passa fora, vagabundo - dizia o homem de terno escuro que carregava uma maleta.
- Não tem polícia em lugar nenhum desta cidade - reclamava a senhora bem vestida que apressava o passo.
- Mãe, ele tá bêbado? - perguntava o menino à bonita jovem de calça justa que o levava pela mão.
Um cachorro preto e feio acompanhava o pedinte. 
Língua de fora, seguia o mendigo por todo o lado. 
Até mesmo quando ele se sentou, talvez cansado, talvez apenas para esperar que um improvável sol viesse esquentá-lo naquela manhã.
Foi quando o animal se assustou com a buzina estridente de um enorme caminhão betoneira que tentava desviar de um minúsculo e inacreditável Fiat 147 que furou o semáforo vermelho.
O bicho disparou pelo gramado mal cuidado, passou por entre os carros estacionados, e o que se ouviu depois foi um só um ganido, um lancinante e doloroso uivo.
Ninguém na praça ficou indiferente. 
Todos correram para ver o que havia acontecido.
Assim, não perceberam quando aquela aberração vestida em trapos se levantou do banco e correu para longe da praça, para longe do mundo.
A boca se mexendo, as lágrimas escorrendo pelo rosto abaixo, grossas, salgadas.



PARABÉNS PRA VOCÊ



No mês, o Parabéns Pra Você já havia sido cantado oito vezes no escritório.
Foram cinco bolos de chocolate com morango, dois de brigadeiro e um de coco - coberto com chocolate.
Naquela terça-feira, quando mais uma vez todos se levantaram para cantar novamente o Parabéns e comer - outra vez - bolo de chocolate, seu Messias, no alto de seus 71 anos, mais de 40 de casa, não aguentou a parada.
Balançou a cabeça, guardou a caneta na gaveta, pegou o envelope do Lavoisier e saiu da sala rumo ao Departamento Pessoal com uma só ideia.
O exame de sangue era claro e taxativo. 
Glicose alta demais. 
Açúcar, nem pensar. 
E, na sua idade, abandonar o vício era impossível.
Melhor partir para a aposentadoria.




HIPOCONDRÍACO


Como era ainda cedo para voltar ao trabalho, resolveu dar uma passada na farmácia da esquina para conferir as novidades.
Estava bem abastecido de analgésicos e antidiarréicos. 
Os remédios para o estômago ainda davam bem para umas duas semanas. 
Também não precisava do antialérgico.
Na gôndola dos produtos naturais, um guaraná composto chamou a sua atenção. Seria bom nos dias de desânimo.
Ao lado, as vitaminas prometiam novidades. Alarme falso. Nada que não conhecesse.
Meio desapontado, foi para o caixa. 
Pagou com dinheiro, pegou o troco, e, quando estava para atravessar a rua, ao virar a cabeça para ver se vinha algum carro, sentiu uma dorzinha no pescoço. 
Quase um torcicolo.
Deu meia volta e entrou feliz na farmácia para comprar uma pomada com anti-inflamatório.




CURRÍCULO COM FOTO E CAPRICHO

Dezoito anos recém-completados, a indecisão sobre o que fazer da vida e a necessidade de ajudar a casa, a mãe, dona Lindinha, cheia de achaques, o pai, seu Oswaldo, à beira de uma aposentadoria inglória, o irmão, Waltinho, às voltas com a oficina mecânica e as contas sempre a pagar.
Quanta responsabilidade!
Foi então que Soninha tomou uma decisão.
Iria trabalhar.
Secretária, recepcionista, quem sabe vendedora de uma butique de luxo.
Pediu conselhos para as amigas, chegou até a telefonar para dona Alzira, ex-professora que era como sua madrinha.
E assim, com toda essa ajuda, preparou um currículo caprichado.
Não esqueceu de acrescentar um toque pessoal:
"Alegre, comunicativa, simpática e de fácil relacionamento."
Leu e releu. Mostrou para a mãe - teve vergonha de levar para o pai.
Dona Lindinha até que gostou, mas fez, séria, uma observação:
- Põe uma foto sua, Soninha. Vai ajudar, você é tão bonita...
Soninha pensou, pensou e achou que era uma boa ideia.
Betinho, o rapaz do 75 que tinha uma queda por ela, foi quem tirou a foto.
Fez pose de moça séria, deu um sorriso cheio de esperança.
Faltava apenas mandar o currículo.
Betinho ajudou também nisso: tinha computador e foi fácil arranjar uma lista de empresas, do comércio, de advogados, médicos, dentistas, todo mundo da cidade que pôde encontrar.
E o currículo entrou na rede.
Dia seguinte, Soninha, com o coração batendo mais forte, abriu seu e-mail no computador da lan house do bairro.
Duas mensagens.
Uma pedia que ela fosse, na terça-feira, a uma entrevista numa fábrica de autopeças que ficava do outro lado da cidade. Recepcionista. Tinha boa chance de conseguir o emprego.
Foi a outra, porém, que mudou sua vida.
"Soninha, você é linda. Não sei dizer mais nada além disso. Quero muito conhecê-la. Sou solteiro, bispo da igreja evangélica Deus na Terra, da Vila Bueno. Acho que você é a resposta às minhas preces. Eu só peço que você responda a este e-mail. Precisamos nos encontrar. Um beijo do sempre seu, Luís."
Anexada à mensagem estava uma foto do bispo Luís.
Soninha respondeu - com alguns erros, perdoáveis, de digitação -, marcou um encontro e viu que a foto do bispo Luís não lhe fazia justiça. Era mais velho pessoalmente, mas muito distinto.
Namoraram pouco - só seis meses. Depois se casaram.
Com as bençãos de dona Lindinha e seu Oswaldo. Até o irmão aprovou.
Mas o bispo Luís insistiu numa coisa: Soninha não tinha nada de trabalhar fora de casa.
E foi assim mesmo que aconteceu: ela nunca na sua vida inteira soube o que era isso.



MEU NOVO AMIGO



Coisa incrível, vi o Zé, o porteiro da manhã, sorrir, ele que nem bom dia dá para as pessoas do prédio.
É que, sem querer, acabei conseguindo um emprego para a sua filha. 
Foi muita sorte. Encontrei com o João, do departamento pessoal, no cafezinho, e, não sei por que, acabei comentando que a filha do porteiro do meu prédio tinha acabado de entrar na faculdade e estava à procura de um trabalho.
Não é que o João se interessou? Me disse que a secretária do dr. Alcides se demitira assim sem mais nem menos e o homem estava desesperado atrás de uma substituta. Liguei imediatamente para o Zé, que telefonou para a filha, e já à tarde ela estava na firma preenchendo o papelório.
Conheci a garota, isto é, ela foi me conhecer. É uma moça bonita, simpática. E estava radiante. Fiquei comovido.
Não sabia que esses pequenos gestos podiam nos afetar tanto. Ou já nem me lembrava disso. E não é uma coisa só minha: a reação do Zé prova que até mesmo os homens mais duros, esses que encaram a vida como uma tarefa diária a ser cumprida, têm, lá no fundo, alguma coisa que é só deles, que pode estar esquecida, guardada não se sabe onde, empoeirada, destroçada, mas que nunca desaparece.
O sorriso do Zé quando me encontrou - ele esperou algumas horas depois do seu turno - para me agradecer falou por si só.
Acho que fiz um amigo - justo eu, que tenho tão poucos.
(Capítulo 4 da mininovela "Condomínio Feliz Cidade")


TUDO POR ELA

por ela
cortou o cabelo
fez a barba
e passou a escovar os dentes três vezes ao dia
por ela
comprou quatro camisas sociais brancas
duas calças cinzas
e um sapato marrom
por ela
trocou o rabo de galo pelo campari
a cerveja por um suco de laranja sem açúcar
e a feijoada pelo sushi
por ela
correu dez quilômetros numa chuva fina e fria
atravessou três sinais vermelhos na avenida sinuosa
bateu o carro seminovo no ônibus que virava a rua
a cem metros do prédio de grades azuis e jardim de gerânios
onde seu amor morava
por ela
desmaiou enquanto a sirene da ambulância irritava os raros fregueses da padaria recém-inaugurada
acordou na asséptica sala do pronto-socorro do velho hospital do bairro
e recebeu pinos de titânio no braço magro em que havia tatuado o nome daquela que seria a sua mulher
por toda a vida



LUISINHO ATRASA DAS CONTAS

A fila do banco chegava quase na porta giratória. Só 20 minutos depois de avançar uns cinco metros em direção aos caixas foi que viu que apenas dois estavam abertos. 
Na verdade, um só: o outro era para idosos e gestantes. A atendente lixava as unhas, sem mais nada para fazer. 
Com a cabeça pesada, os pés inchados, o suor escorrendo do rosto e manchando a camisa, as costas doendo, achou que não ia aguentar. 
Saiu da fila, virou à esquerda e, ao avistar dois rapazes batendo papo em suas mesas, perguntou, com o que restava de suas forças:
- Por favor, quem é o gerente da agência?
Um deles se dignou a olhar aquela triste figura e respondeu, com uma voz fininha, chata e petulante:
- O gerente está almoçando. Volta só às 14 horas.
Seu relógio marcava meio-dia e vinte. Definitivamente, não ia conseguir esperá-lo.
Arriscou uma reclamação:
- Quer dizer que não tem ninguém que possa dar ordem para abrir mais caixas? Olha só o tamanho da fila...
Aí foi a vez do outro rapaz. Voz mais grossa e entonação ainda monótona, arrogante:
- O senhor não vê que estamos em horário de almoço?
E virou as costas para continuar a conversa.
Foi o que bastou para que Luís Carlos Almeida de Souza, que todos de sua vizinhança e do seu trabalho conheciam como Luisinho, um sujeito pacato que só saía do sério quando o Santos perdia e os amigos resolviam lembrá-lo do vexame, esquecesse das lições de sua mãe sobre como era feio falar palavrão - e da surra que levou certa vez de seu pai por ter dito que aquela novela da Globo que o impedia de ver um superfilme de bangue-bangue na Record era uma "merda".
Bem, isso havia ocorrido muito tempo atrás. 
Naquela agência bancária pequena, abafada e calorenta, ele não repetiu, para todos os que ali estavam, aquelas bobagens de criança.
Para um adulto como ele, vivido, cada vez mais cansado e dolorido, "merda" era pouco. 
As sete pragas do Egito saíram de sua boca como uma tormenta, um vendaval, um maremoto, um furacão - como a lava de mil vulcões, as chamas do inferno.
As contas da luz, da água e do telefone iam atrasar de novo.
Besteira. 
Valia mais aquela estranha sensação que o abrigou no resto do dia. Algo tão forte que até sua mulher, geralmente tão alheia à sua intimidade, reparou:
- Nossa, Luisinho, que é que você tem? Hoje você está tão diferente...



CORAÇÕES SOLITÁRIOS



Na véspera do Dia das Mães se aventuraram no shopping.
Muitas lojas depois, entraram naquele enorme magazine que anunciava preços até "30% off".
Havia gente demais, ofertas tentadoras demais.
Ela abriu caminho pela seção de roupas femininas.
Ele desbravou o de utilidades domésticas.
As pessoas eram tantas e os cartazes tão convincentes que, passadas duas horas,
ele,
dor nas costas, resolveu dar por encerrada a expedição por panelas, travessas, pratos;
ela,
cabeça a latejar, achou que iria sufocar se continuasse a experimentar blusas, calças, pijamas;
e assim, como por encanto, os dois se viram face a face na enorme fila única do caixa.
E já que eram dois sobreviventes, deram as mãos e foram embora, felizes por terem enfim se encontrado.




VIAGEM PELO ARCO-ÍRIS


Falava pouco, ria menos e passava os dias a caminhar sozinho.
Certa vez choveu muito, até que as nuvens foram embora e o sol chegou.
E um enorme arco-íris atravessou a cidade de ponta a ponta.
Ele, que seguia distraído por uma rua estreita e íngreme, perseguiu as cores como um predador fareja a presa e assim andou, andou por horas.
Até que tropeçou num pote de ouro.
Rodopiou e caiu como um balão murcho no chão duro.
Foi uma queda e tanto.
Tão violenta que seu corpo se entregou ao cansaço e ele placidamente adormeceu.
Quando acordou, era noite e estrelas cadentes riscavam o céu.
Tantas e tantas que perdeu a conta.
E ao amanhecer, com o cheiro da vida à sua volta, já havia se esquecido de onde estava.
Ou como chegara ali. 
Mas não se importou. 
O mundo começava, enfim, a fazer sentido.



DEDO DURO

Começou cedo.
Quando a professora quis saber quem havia soltado aquele peido estereofônico, foi o primeiro a dizer:
- Não fui eu. Foi o Zezinho.
E apontou o magricela com seu indicador pequeno e raquítico, duro e incisivo.
Ao episódio sonoro sucederam-se outros, de vários tipos e único gênero.
Certa vez falou para o pai que a Inezinha, sua irmã, passava no shopping as tardes em que deveria estar estudando.
Noutra ocasião contou para a mãe que viu o pai parar o carro na esquina e dar carona para a Betinha, a moça loira e bonita do terceiro andar.
Acostumou-se com a delação.
Fez dela um estilo de vida - cômodo, prático, eficaz.
Degrau a degrau, escalou metodicamente posições que o levaram a ser tudo o que sempre quis: viver a tranquilidade dos sem-consciência.
Era apontado pelos vizinhos como modelo a ser seguido.
Só uma vez teve as convicções abaladas.
O filho, adolescente quieto, chegou em casa com a cara inchada, a orelha amassada, o olho fechado.
- Fala quem foi que fez isso, fala de uma vez!
E o garoto quieto.
- Fala que eu entrego esse filho da puta pra polícia!
E nada, nadinha de nada, nem uma palavra.
Nunca entendeu a razão do silêncio, nem soube de nome nenhum.
Mas sempre quis apontar o filho para todos e gritar, o coração explodindo de orgulho:
- É o meu garoto, ele sabe ficar quieto!