O ÚLTIMO TORCEDOR


A bandeira era um farrapo só.
Como seu time.
O pior entre os piores.
Um saco de pancadas.
De vexame em vexame, de goleada em goleada, sobraram sete jogadores, três torcedores, e um cachorro magro e feio que abanava o rabo quando o juiz apitava falta, pênalti, escanteio, tiro de meta, gooool.
Nem técnico havia.
As camisas do uniforme estavam cheias de buracos, a cor indefinida entre um pálido amarelo e um branco acizentado.
Ninguém tinha chuteira.
Quando o jogo começava a derrota surgia inexorável e imensa em todos os cantos, em todos os rostos, em todos os lances grotescos daquele time despedaçado.
Os três torcedores viraram dois - Altamiro desesperou-se e mudou de bairro para ficar longe da humilhação -; Bento trocou a paixão do futebol pelo corpo da mulata Joana.
Sobrou ele, o obstinado, o último torcedor.
- Homem que é homem não muda de time - dizia a quem estranhava sua obsessão pela derrota.
Mas o tempo passou depressa, o campo esburacado onde tanta raiva e vergonha foram plantadas virou um condomínio de luxo, cinco altas torres de prédios indiferentes aos dribles e fintas que incontáveis craques anônimos deram às vicissitudes da vida.
O time se foi, cada um por si, cada qual para o lado que achou melhor.
E ele, o abnegado, se sentiu traído, se sentiu roubado.
- Meu time me abandonou, mas eu nunca vou abandonar meu time - falava em voz alta, a mesma voz com que xingava o juiz, os bandeirinhas, o goleiro do adversário, para quem quisesse ouvir.

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