A LEI DO SILÊNCIO


Morava no décimo andar, ou seja, o último.
Reclamava de todo e qualquer barulho: cachorro latindo, gato miando, criança chorando, televisão alta, pássaros cantando, caminhão de gás...
O zelador não aguentava mais.
O síndico, então...
Os vizinhos de seu andar já nem o cumprimentavam.
O de baixo, numa reunião do condomínio, quase quebrou uma cadeira em sua cabeça.
Seu mau humor durou anos.
Sua intolerância tornou-o famoso na rua.
A molecada fugia quando ele chegava com seu Gol prateado.
Os porteiros do prédio nem ousavam olhar para ele quando ele saía ou entrava.
E a vida seguiu assim por vários anos, até que um dia...
Foi bem naquela hora em que o pessoal ia trabalhar, de manhã bem cedo. 
Mais de dez pessoas foram testemunhas de sua derrocada, ali no pátio, ao lado do parquinho com seus brinquedos desgastados.
Ele até que tentou se safar, mas não deu, pois além de gritar e botar o dedo na sua cara, dona Geralda, a patroa do seu Juvenal, o reclamão, ainda lhe deu uma estrondosa bofetada, daquelas que envergonham por toda a vida qualquer machão.
Depois disso, os cachorros latiram à vontade, os gatos miaram como nunca, as crianças choraram até arrebentar os pulmões, o som da televisão virou uma algaravia infernal, os pássaros soltaram a voz e o caminhão de gás soou sua musiquinha até os alto-falantes estourarem.
E o seu Juvenal ficou mudinho.

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