Currículo com foto e capricho

Dezoito anos recém completados, a indecisão sobre o que fazer da vida e a necessidade de ajudar a casa, a mãe, dona Lindinha, cheia de achaques, o pai, seu Oswaldo, à beira de uma aposentadoria inglória, o irmão, Waltinho, às voltas com a oficina mecânica e as contas sempre a pagar.
Quanta responsabilidade!
Foi então que Soninha tomou uma decisão.
Iria trabalhar.
Secretária, recepcionista, quem sabe vendedora de uma butique de luxo.
Pediu conselhos para as amigas, chegou até a telefonar para dona Alzira, ex-professora que era como sua madrinha.
E assim, com toda essa ajuda, preparou um currículo caprichado.
Não esqueceu de acrescentar um toque pessoal:
"Alegre, comunicativa, simpática e de fácil relacionamento."
Leu e releu. Mostrou para a mãe - teve vergonha de levar para o pai.
Dona Lindinha até que gostou, mas fez, séria, uma observação:
- Põe uma foto sua, Soninha. Vai ajudar, você é tão bonita...
Soninha pensou, pensou e achou que era uma boa ideia.
Betinho, o rapaz do 75 que tinha uma queda por ela, foi quem tirou a foto.
Fez pose de moça séria, deu um sorriso cheio de esperança.
Faltava apenas mandar o currículo.
Betinho ajudou também nisso: tinha computador e foi fácil arranjar uma lista de empresas, do comércio, de advogados, médicos, dentistas, todo mundo da cidade que pôde encontrar.
E o currículo entrou na rede.
Dia seguinte, Soninha, com o coração batendo mais forte, abriu seu e-mail no computador da lan house do bairro.
Duas mensagens.
Uma pedia que ela fosse, na terça-feira, a uma entrevista numa fábrica de autopeças que ficava do outro lado da cidade. Recepcionista. Tinha boa chance de conseguir o emprego.
Foi a outra, porém, que mudou sua vida.
"Soninha, você é linda. Não sei dizer mais nada além disso. Quero muito conhecê-la. Sou solteiro, bispo da igreja evangélica Deus na Terra, da Vila Bueno. Acho que você é a resposta às minhas preces. Eu só peço que você responda a este e-mail. Precisamos nos encontrar. Um beijo do sempre seu, Luís."
Anexada à mensagem estava uma foto do bispo Luís.
Soninha respondeu - com alguns erros, perdoáveis, de digitação -, marcou um encontro e viu que a foto do bispo Luís não lhe fazia justiça. Era mais velho pessoalmente, mas muito distinto.
Namoraram pouco - só seis meses. Depois se casaram.
Com as bençãos de dona Lindinha e seu Oswaldo. Até o irmão aprovou.
Mas o bispo Luís insistiu numa coisa: Soninha não tinha nada de trabalhar fora de casa.
E foi assim mesmo que aconteceu: ela nunca na sua vida inteira soube o que era isso.

Luisinho atrasa as contas

A fila do banco chegava quase na porta giratória. Só 20 minutos depois de avançar uns cinco metros em direção aos caixas foi que viu que apenas dois estavam abertos. 
Na verdade, um só: o outro era para idosos e gestantes. A atendente lixava as unhas, sem mais nada para fazer. 
Com a cabeça pesada, os pés inchados, o suor escorrendo do rosto e manchando a camisa, as costas doendo, achou que não ia aguentar. 
Saiu da fila, virou à esquerda e, ao avistar dois rapazes batendo papo em suas mesas, perguntou, com o que restava de suas forças:
- Por favor, quem é o gerente da agência?
Um deles se dignou a olhar aquela triste figura e respondeu, com uma voz fininha, chata e petulante:
- O gerente está almoçando. Volta só às 14 horas.
Seu relógio marcava meio-dia e vinte. Definitivamente, não ia conseguir esperá-lo.
Arriscou uma reclamação:
- Quer dizer que não tem ninguém que possa dar ordem para abrir mais caixas? Olha só o tamanho da fila...
Aí foi a vez do outro rapaz. Voz mais grossa e entonação ainda monótona, arrogante:
- O senhor não vê que estamos em horário de almoço?
E virou as costas para continuar a conversa.
Foi o que bastou para que Luís Carlos Almeida de Souza, que todos de sua vizinhança e do seu trabalho conheciam como Luisinho, um sujeito pacato que só saía do sério quando o Santos perdia e os amigos resolviam lembrá-lo do vexame, esquecesse das lições de sua mãe sobre como era feio falar palavrão - e da surra que levou certa vez de seu pai por ter dito que aquela novela da Globo que o impedia de ver um superfilme de bangue-bangue na Record era uma "merda".
Bem, isso havia ocorrido muito tempo atrás. 
Naquela agência bancária pequena, abafada e calorenta, ele não repetiu, para todos os que ali estavam, aquelas bobagens de criança.
Para um adulto como ele, vivido, cada vez mais cansado e dolorido, "merda" era pouco. 
As sete pragas do Egito saíram de sua boca como uma tormenta, um vendaval, um maremoto, um furacão - como a lava de mil vulcões, as chamas do inferno.
As contas da luz, da água e do telefone iam atrasar de novo.
Besteira. 
Valia mais aquela estranha sensação que o abrigou no resto do dia. Algo tão forte que até sua mulher, geralmente tão alheia à sua intimidade, reparou:
- Nossa, Luisinho, que é que você tem? Hoje você está tão diferente...