ERA UMA VEZ UM GOL PRATA


E não é que o Zé, o porteiro ranzinza que ficou meu amigo depois que, por pura sorte, arranjei, entre aspas, um emprego para a sua filha na firma onde trabalho, já retribuiu o favor?
Ele me deu uma dica importante:
- Seu Carlos, tem um pessoal estranho rondando o quarteirão nesses dias. É bom o senhor tomar cuidado: seu carro não é novo, mas não é bom dar bobeira.
O carro a que ele gentilmente se referiu é um Uno 97 já bem rodado, que deixo na rua para poder alugar a garagem e garantir um dinheirinho extra para a feira. Não tenho seguro porque, além de caro, sempre achei que ladrão nenhum iria se entusiasmar pela minha condução - automóvel, definitivamente, aquilo não é.
Mas fiquei atento à dica do Zé. Comprei uma supertrava - a propaganda jura que com ela ninguém pode - e bati um papo com o Barbosa, o porteiro que atravessa a madrugada:
- É bom você ficar acordado, telefone na mão, bem esperto.
Minha rua é tranquila, mas nunca se sabe. Ou melhor, o Zé sabia: não é que duas noites depois de seu aviso um alarme disparou, acordou meio mundo e batata! - levaram o Gol prata lindo lindo do filho do seu Antenor do 43.
A polícia passou pelo prédio, não fez absolutamente nada, só assustou a vizinhança.
Hoje em dia esse pessoal que tem dinheiro para pagar seguro dorme sossegado.
Dinheiro é bom, compra segurança, entre outras coisas.
Como tenho só o suficiente para ir levando, me contento com esse Uno 97 que nem ladrão pé de chinelo quer.
Ainda bem, sem ele estaria perdido. Para garantir vou arranjar mais uma trava - e, quem sabe, mandar instalar um desses alarmes estridentes.
E rezar para que ele não toque nunca.
(Capítulo 5 da mininovela "Condomínio Feliz Cidade")



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